5 de ago de 2011

V de Vingança, Anarquismo, Anonymous, a frágil realidade e David Lloyd


Eu colecionava quadrinhos de super-heróis quando era criança, acho que dos dez até os quatorze anos, assim como a maioria dos leitores deste blog. Mas quando cheguei aos quinze comecei a enjoar das histórias e decidi parar de ler super-heróis, comecei a achar a coisa meio infantil. Além disso eu tinha entrado para o segundo grau, ou ensino médio, como dizem hoje, e estava interessado em política, movimento estudantil e toda essa bobagem.

Dai entrei em contato com a doutrinação esquerdista que basicamente diz que super-heróis são instrumentos do "imperialismo" americano e blá blá blá. Eu era jovem e burro e cai nessa, acredite, naquela época era assim! Virei um daqueles caras do grêmio estudantil que ficam pagando discurso pros outros alunos nas salas de aula e frequentando reuniões de partido. Não teve mais lugar pra super-heróis nas minhas leituras, eram só panfletos marxistas, trotkistas e literatura engajada. Uma fase ruim.

Um dia, matando aula na biblioteca pública da cidade, como eu sempre fazia, descobri uma sala que eu nunca tinha visto. Era uma gibiteca. Decidi dar uma olhada no que tinha lá. Pra falar a verdade, de quadrinhos eu só conhecia os super-heróis e os gibis que lia quando era criança, da Disney (nunca gostei de Turma da Mônica).

Então lá naquela sala ampla, lotada de caixas azuis com milhares de gibis, tinha muita coisa que eu nunca tinha ouvido falar, coisas tipo a Cripta do Terror, Moebius, graphic novels, quadrinhos alternativos nacionais, a revista Animal, Sandman, Guido Crepax, Will Eisner, todo um universo novo, diferente dos super-heróis. É lógico que eu fiquei reprovado no final do ano por causa disso. Passei a gastar mais tempo nessa gibiteca do que na sala de aula, ehehe. Me apaixonei denovo pelos quadrinhos!

No meio disso, descobri uma caixa que tinha um título sugestivo: "Drama". Olhei dentro meio desesperançado, "que tipo de HQ tem drama?" E lá dentro estava: Watchmen, Skreemer e V de Vingança. O primeiro que eu li foi V, gostei dos desenhos escuros de David Lloyd.

Lógico que eu pirei com o gibi e como me interessava por política e achava os caras dos partidos um pé no saco, passei a me dizer "anarquista" imediatamente. Era uma fase ruim, adolescência, sabe como é?

Logo conheci outras pessoas e me convidaram para uma reunião de um coletivo de anarquistas, não me lembro bem como foi, mas eram uns comunistazinhos arrependidos, ex-punks e uns tipinhos que hoje eu nem chegaria perto que se reuniam pra não fazer nada em uma casa abandonada e se diziam anarquistas. Uma coisa que eu fiquei sabendo logo de cara é que não gostava de ninguém alí, mas precisava de algo pra me identificar, então ficava um tempo por lá pra ver se tinha bebidas e meninas.

Tinham federações e coisas do tipo que não me lembro agora, era tudo uma coisa que acontecia somente na cabeça deles, influencia de literatura ruim, porque, na prática, não existia nada alí além de uns desocupados se entretendo de forma desonesta. Dai esses caras me passaram um monte de jornaizinhos e fanzines com doutrinação libertária, um deles se chamava "Libera... Amore Mio" e trazia notícias de anarquistas que eram presos em países distantes como a Bulgária. Coisas sem nexo.

O Libera era editado mensalmente pelo Círculo de Estudos Libertários (CEL) no Rio de Janeiro: um grupo de debates semanais nascido a partir de um curso sobre Anarquismo promovido pela Univerta (Universidade Aberta) em 1985. Veja http://bibliotecasocialfabioluz.wordpress.com/acervo-digital/jornais-e-informativos/libera/



Esse jornalzinho fazia referência ao V de Vingança, utilizando a máscara de V como símbolo, isso em 1996, muitos anos antes da HQ se tornar mais conhecida por causa do filme.

Agora vamos viajar no tempo, quinze anos depois, quando ouvi falar de um grupo de hackers chamado Anonymous, e me deparei com a surpresa que eles causaram por utilizar as máscaras de V. Alguma novidade pra mim? Nenhuma. Cheguei até a pensar, "ah, mas esses ai não são anarquistas, são só uns moleques que viram um filme e se empolgaram, passaram muito tempo no computador e pronto, agora acham que podem fazer uma revolução por ter a capacidade de tirar do ar alguns sites do governo por algumas horas. Divulgam alguns videos e manifestos cheios de clichês estilo Matrix/Clube da Luta e arrebanham milhões de seguidores nas redes sociais." Será?

Voltando de novo: Sou da época em que não existiam redes sociais, o acesso a informação era muito difícil comparado com o que temos hoje, apesar de já existir internet em 1996, ela ainda não era o que é atualmente e tinha acesso muito restrito. Foi o final da época dos fanzines, das revistas e dos vagabundos que se reuniam em casas abandonadas para trocar informações em meio a alcool e gibis. Era melhor do que hoje.

Se você fosse um anarquista e quissesse atacar o Estado, teria de ser mesmo um fanzineiro, e em um nível mais radical, um baderneiro ou terrorista. Era o final da época dos quadrinhos divulgando ideias radicais, hoje é a época dos filmes e da internet. A informação era mínima, os grupos eram pequenos, a motivação era pífia, poucos conheciam muitas coisas, tudo dependia da amizade, da troca. Nenhum fanzine atingia massas, nenhum ato atingia grandes proporções.

Então esses caras, os Anonymous, que eu acho que não passam de inconsequentes, supostamente atacam sites do governo. Se eles existem realmente, podem ser pessoas que nem se conhecem na vida real, mas suas atitudes chegam ao conhecimento de milhões. E há grandes jornais, como a Folha de São Paulo e o The Guardian, que se esmeram em divulgá-las. O efeito de seus atos pode ser grande.

Pra mim o resultado de suas ações, futuramente, poderia ser a criação de uma supervigilância da internet, com o pretexto de coibir esses ataques á ordem estabelecida. Mas não se pode deixar de notar que eles são o equivalente atual daqueles grupinhos que ainda existiam em 1996, que desde aquela época já usavam a máscara de Guy Fawkes como símbolo em jornaizinhos. A diferença é que naquela época aqueles poucos tinham lido um gibi. Hoje são multidões que assistiram a um filme.

A influencia de V de Vingança naquela época era mínima, poucas pessoas espalhadas pelo mundo, mas já existia. Hoje, por causa da mudança no volume de circulação de informações, são multidões que se deixam influenciar.

Desde o 11 de Setembro até a atual onda de ataques terroristas pelo mundo, me pergunto o quanto pode uma HQ influenciar a realidade ou prevê-la. Quem garante que não há, ai pelo mundo, um louco com delírios de V ou Adrian Veidt? V se inspirou em Guy Fawkes, Adrian Veidt se inspirou em Alexandre, quem irá se inspirar neles? Já conheci pessoas que não distinguem a realidade da ficção, mas eram pessoas inofensivas, apenas loucos que não poderiam agredir ninguém além de si mesmos. Mas e se não for assim? E se essas pessoas tiverem a rigidez moral, a capacidade intelectual e as condições materiais para realizar monstruosidades de ficção, imbuídas da ideia de que estão transformando o mundo para melhor?

Recentemente tivemos o caso do atirador norueguês, um maníaco de direita que achava que estava livrando a Europa do Islamismo. Quantos loucos como esse não poderiam achar inspiração em V de Vingança ou Watchmen? Não interessa se o ideal é de esquerda ou direita. Na cabeça de um fanático, ele sempre está certo. Mas como sabemos, ele nunca esta.

Você sabia que Hitler se inspirou em uma ópera?

Por enquanto o que temos são adolescentes utilizando máscaras engraçadinhas e zoando sites do governo e de empresas a partir do porão de suas mamães. Mas o que teremos no futuro? Qual a influência dos quadrinhos na realidade? Como eles poderiam construí-la de forma positiva?

Ou será que esse grupo Anonymous não passa de uma armação dos governos para pegar incautos, assim como o Wikileaks? A realidade é muito frágil, a ficção é perene. Cabe a você distinguir.

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David Lloyd foi entrevistado pelo Comics Alliance sobre o uso da Máscara de V pelos hackers do Anonymous e sobre a gênese da obra.

ComicsAlliance: Diz-se que V de Vingança foi uma reação a administração conservadora de Margaret Thatcher, foi isso? E você vê algum paralelo com o que esta acontecendo atualmente na política?

David Lloyd: Não, [a graphic novel] de início foi uma resposta ao crescimento do apoio ao National Front na Inglaterra. 1977/79 foi um período de alto desemprego e quando a ala anti-imigração se fortaleceu, paralelamente ao Partido Conservador. Com o tempo e a medida que Margaret Thatcher se tornou mais radical, ela se tornou o estímulo de nossa empreitada, logicamente. E agora? Sim, o aumento da influencia do Tea Party reflete a ascensão do conservadorismo radical no final dos anos 70 no Reino Unido. Más notícias para vocês. Isso é algo com que Larry e Andy [Wachowski] estavam obviamente preocupados na adaptação para o cinema da história.

CA: Por que Guy Fawkes foi uma inspiração para o personagem V?

DL: Ele era um companheiro revolucionário da História e a ideia de nosso personagem adotar a persona, o traje, e, por coincidência, a sua missão falida, nos deu a teatralidade que precisávamos, quando esse era o elemento que faltava no seu desenvolvimento.

CA: Há algo de tipicamente britânico sobre a lenda de Guy Fawkes, que em outros lugares as pessoas terão dificuldades de entender?

DL: Não. Ele foi um revolucionário, como muitos revolucionários de outros lugares, exceto pelos seus objetivos, e que de seus companheiros conspiradores, foi o único a criar o caos a partir do qual uma melhor ordem pode surgir, em vez de mudar toda a estrutura de governo.

CA: Você estava mesmo descontente com o governo ou com as instituições de autoridade durante a criação da história?

DL: Sim. Tanto eu quanto Alan, e quase todo os artistas do ramo de quadrinhos éramos anti-conservadores e socialistas.

CA: Ano que vem, V de Vingança vai completar trinta anos, se você fosse construir uma história semelhante hoje, o que teria de parecido e o que seria diferente?

DL: Não consigo imaginar o que seria, se fosse pra apagar o efeito que V exerceu sobre a indústria e no mundo.

CA: Anteriormente, você mencionou que a máscara de V se tornou um ícone da mesma forma que Che Guevara já é há tempos. Isto de alguma maneira reduz o espírito daquilo que você tinha em mente quando criou os quadrinhos?

DL: Por que? Che foi tão imperfeito quanto V como um revolucionário e como ser humano, mas ele foi dedicado as suas ambições assim como V. V é uma criação sofisticada demais pra ser uma cópia de Che, mas não perde em comparação com ele, sendo, é claro, um personagem e não uma pessoa real.

CA: Alan Moore parece ter encarnado da maneira mais sincera o ideal de anarquia na personalidade de V. O que significa para você essa noção de completa liberdade individual?

DL: Nunca achei que a anarquia funcionaria como uma forma viável de condução da sociedade, mas é um grande sonho pensar que poderia. Porém, manter a individualidade de pensamento e ação em uma estrutura de sociedade, e não ser afetado pela opressão da manipulação convencional é uma necessidade fundamental a ser preservada. E pra mim esse é o tema mais importante da história.

CA: Qual é a sensação de ter feito parte da criação de um personagem que, anos depois, ainda permanece como um símbolo de rebelião?

DL: É bom.

CA: Você tem algo a dizer sobre o que o grupo intitulado 'Anonymous' esta fazendo?

DL: Eles parecem estar resistindo a opressão da melhor maneira que sabem. Não tenho muito conhecimento sobre eles para oferecer uma visão de grande valor.

CA: O que você acha que o futuro reserva para o personagem V?

DL: Um futuro como símbolo de protesto para todos aqueles que sentem necessidade de usá-lo dessa maneira.



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1 Comentário:

Leonardo disse...

O artigo está bem articulado. Eu até poderia me inclinar a escrever mais, mas só vou colocar duas razões porque eu não concordo.
Os quadrinhos (não todos) são um reflexo de uma época, assim como o Anonymous é um reflexo da sociedade. E o símbolo do V é um referência de resistência, como no quadrinho ele oferece uma resistência contra o governo opressor. Não vivemos um governo como aquele das ditaduras militares, mas a sobre dele sempre está por ai.

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