Quando você não conhece um assunto, você não vai saber falar sobre ele. Quando você não aprecia um assunto, você não vai falar nada positivo sobre ele. Então é melhor calar a boca.
Um dos posts mais populares neste blog até hoje foi
Alan Moore decreta a morte da indústria de quadrinhos, publicado em 3 de agosto do ano passado. Era um trecho de uma longa entrevista ao site
Newsarama em que o escritor comentava o reboot da DC Comics apenas um mês antes de seu início. Em seu estilo verborrágico, provocativo e egocêntrico, previu o que seria o estertor de morte da indústria de quadrinhos de super-heróis.
Segundo o barbudão, a indústria viveria um momento de falência criativa e por isso as empresas estariam desesperadas na busca por leitores, que diminuem cada vez mais. Uma reformulação completa de seus produtos seria o último ato de agonia de um mercado a beira do colapso:
"eu acho que nós podemos esperar um monte de revisões e reinícios dessas empresas que predizem representar os murmúrios de morte da indústria, e em um nível em que elas mesmas são culpadas. Como você sabe, se o que você falou sobre a DC estiver correto e eles estão mesmo fazendo este retorno ao passado, a um tempo em que eles ainda vendiam mais quadrinhos, então, você sabe, isso é bem previsível. Porque me parece que os quadrinhos colocaram a si mesmos em uma posição onde não podem vislumbrar um futuro, e estão eternamente tentanto retornar a um passado onde estavam mais confortáveis. ""Meus sentimento básico com relação a atual indústria de quadrinhos é apenas um desejo de que sua agonia final não seja tão humilhante ou desesperada, por que ela é merecida. Se a indústria é incapaz de apresentar novas ideias e um futuro para sua evolução, então ela realmente não merece sobreviver"Muitas pessoas tuitaram e curtiram esse post, foram milhares de visitas, até hoje ainda tem gente que aparece pra ler, muitos deles são profissionais do ramo de quadrinhos. A maioria desconsiderou minha introdução ao texto e pensou que eu apoiava as afirmações paranoicas de Alan Moore.
Poucas pessoas realmente acreditam que os super-heróis estariam em um momento derradeiro da sua história, vivendo seu período criativo final, tendo como prova as baixas vendas, poucas pessoas são tão estúpidas. Mas como isso foi dito por Alan Moore, e seus seguidores repetem tudo que ele fala sem questionar, a afirmação ganhou força, aliado a tendência que certas pessoas tem para criticar tudo que é feito pelos americanos, ou simplesmente, criticar o que não conhece.
Nunca acreditei nessas ideias. A indústria de quadrinhos de super-heróis já passou por diversos momentos de crise criativa e baixas vendas, mas sempre se recuperou. Acredito que hoje essa crise parece ser mais grave devido ao momento de transição que passamos, que reúne diversos fatores: as novas tecnologias que se apresentam como uma opção ao papel como suporte para as HQs; a crise econômica americana; as transformações sociais ocorridas após o 11 de setembro, que tornaram obscuro o conceito de super-herói; a pirataria digital; a crescente inadequação das histórias a um público leigo e ás crianças; arcos de histórias imensos que envolvem muitos títulos e afastam os leitores antigos; e por fim, a popularização dos personagens através do cinema de massas, que exige novas abordagens nas HQs, para a correta absorção de um público que não conhece a cronologia dos quadrinhos.
O reboot da DC parecia, na minha visão, reunir propostas de solução para quase todas essas questões. Com o lançamento simultâneo do impresso com o digital, a questão do suporte seria finalmente posta a prova. Se as novas gerações preferem o iPad em vez do papel, finalmente saberiamos e teriamos como responder. Se as histórias repletas de referências cronológicas de décadas atrás não permitem a compreensão das HQs por grande parte dos novos leitores, atraídos aos gibis por meio dos filmes, a reformulação completa resolveria. Se as crianças não gostam das temáticas lúgubres e pesadas, temas mais leves e palatáveis a esse público poriam um fim no problema. Os arcos passariam a ter apenas seis partes, com poucas interligações, atraindo de volta os velhos leitores ao formato mais amigável que existia antigamente.
Esperei os resultados do reboot pra dar uma resposta apropriada aqueles que acreditavam nas estapafúrdias afirmações de Alan Moore. E a resposta veio através de números, principalmente!
O reboot é um sucesso de vendas desde o início e agora, após o fim do primeiro arco de todos os títulos, com alguns poucos cancelados, a indústria de quadrinhos de super-heróis demonstra, com toda certeza, estar longe do seu fim.
Logo após o reboot, em outubro de 2011, os dados já eram muito positivos. Cinco milhões de revistas foram vendidas em seis semanas. Justice League #1 já tinha vendido mais de 250 mil, Action Comics #1 e Batman #1, mais de 200 mil. Quinze dos Novos 52 superaram os 100 mil exemplares.
A DC superou a Marvel nos primeiros meses, mas logo a disputa se equilibrou. As vendas cairam um pouco, obviamente, mas o ano de 2011 se encerrou com 3 milhões de unidades vendidas a mais do que o ano de 2010. Entre os dez títulos mais vendidos do ano, 9 eram da DC e todos acima da casa dos 150 mil exemplares:
1) Justice League 1: 231 mil
2) Batman 1: 218 mil
3) Action Comics 1: 204 mil
4) Justice League 2: 186 mil
5) Batman 2: 179 mil
6) Ultimate Comics Spider-Man 160: 173 mil
7) Green Lantern 1: 172 mil
8) Justice League 3: 161 mil
9) Action Comics 2: 156 mil
10) Detective Comics 1: 154 mil
Em janeiro deste ano, três das HQs mais vendidas ultrapassavam os cem mil exemplares, todos os top dez eram da DC e foi registrado um crescimento de 27,5% com relação ao mesmo período do ano anterior. As duas editoras disputavam cara a cara o primeiro lugar em vendas e arrecadação como não se via há muitos anos.
Em fevereiro as vendas tiveram alta de 10% com relação a janeiro, e ainda apresentam um
crescimento de 22% com relação ao mesmo período de 2011. A Marvel superou DC com uma pequena vantagem, mas todos os top dez são da DC. Justice League #6 e Batman #6 superaram a casa dos cem mil.
Chegando ao fim do primeiro arco de histórias do reboot, outra grata surpresa: a loja digital de quadrinhos Comixology divulgou que já foram baixados legalmente 50 milhões de HQs no site, sendo 10% desse montante só em dezembro de 2011. No mesmo período foram vendidas 6,5 milhões de revistas. É certo que grande parte desses gibis baixados foram oferecidos gratuitamente, mas não deixa de ser uma prova de que este já é um nicho significativo do mercado, uma nova fronteira a ser explorada. A Marvel anunciou hoje que vai disponibilizar códigos para o download gratuito de alguns de seus principais títulos, aqueles que custam mais caro, U$ 3,99. É uma nova forma de atrair o leitor para o meio digital.
O crescimento nas vendas chegou a barreira dos seis meses prevista inicialmente e é neste momento que temos seu melhor efeito: a Marvel também foi beneficiada! As vendas não aumentaram apenas para a DC. A Marvel lança este mês o seu mega evento do ano, Avengers vs X-Men, um grande porradal entre as duas equipes motivado pelo retorno da Fênix. Os pedidos do número um da série superaram os de Justice League #1, a explosão inicial do reboot. Foram 200 mil exemplares encomendados pelos lojistas americanos. Como JL #1 já vendeu quase 400 mil em sete reimpressões, calcula-se que AvX #1 venda algo parecido. A primeira reimpressão já foi encomendada. Algumas fontes predizem que um reboot da Marvel estaria sendo preparado para depois dessa grande saga!
O reboot da DC trouxe histórias ruins e superficiais, como o próprio carro chefe,
Justice League de Geoff Jonhs, mas também trouxe ótimas novidades aclamadas por público e crítica, como o Homem Animal de Jeff Lemire e o Monstro do Pântano de Scott Snyder. Aquaman vem sendo renovado e aponta caminhos interessantes. A qualidade de muitas HQs é duvidosa, mas estamos falando de uma indústria que pretende sair de uma crise e não arriscar.
Os pessimistas citam uma pesquisa recem encomendada pela DC que teria demonstrado que somente 5% dos leitores atuais realmente seriam novos leitores, e apenas 2% tem entre 12 e 18 anos. Conclui-se que o reboot não teria atraido novos leitores, mas sim veteranos que andavam afastados e este ainda seria um público envelhecido! Eu pessoalmente não acredito que isso seja negativo. Veteranos são os melhores leitores! Nada mais simples!
Quando o reboot foi anunciado, eu pensei que as histórias seriam substancialmente infantilizadas, mas foi um engano. O
sexo entre Batman e Mulher-Gato e o excesso de violência mostram que não é bem assim. As histórias não foram exatamente infantilizadas, elas foram
simplificadas para o entendimento do público e não duvido que um nível maior de complexidade seja atingido somente após algum tempo. A editora parece estar sendo muito cuidadosa para garantir o sucesso de sua empreitada. Histórias mais simples, mais
marvelizadas, menos doideira cósmica e muito mais contato com o público é a chave do sucesso. O público não é de crianças, porém não há nada de clima pesado ou profundidade psicológica na maioria dos títulos. Talvez não haja grandes ideias, mas todo um campo novo esta se abrindo para elas. E ideias são cultivadas.
A indústria de quadrinhos não vive só de gibis. Os produtos derivados, brinquedos, jogos, action figures, memorabilia, animações também devem ter tido aumento em suas vendas. Os pessimistas afirmam que este é um momento passageiro, mas isso não é verdade. Quatro grandes filmes vem ai, Os Vingadores, Batman - The Dark Knight Rises, O Espetacular Homem Aranha, e Superman - O Homem de Aço, todos vão refletir esse crescimento e os super-heróis estarão com um grande espaço no imaginário popular por mais uns bons anos.
Os números e a repercussão do público provam que a indústria de quadrinhos de super-heróis dá sinais de renascimento.
Alan Moore errou em seu prognóstico, o clima lúgubre de morte estava apenas em sua mente pervertida. Os remorsos pelas perdas que teve em seu contrato desastroso com DC Comics lhe influenciaram negativamente e ele parece ter cada vez mais ódio do que amor pelos quadrinhos. Falar sobre o que não conhece pode ser estúpido e perigoso, mesmo para um gênio. Falar sobre o que se odeia é para os estúpidos. O ódio corrompe a capacidade de raciocínio. Alan Moore deveria voltar a escrever super-heróis magnificamente bem como ele fez em Tom Strong, Promethea, Supreme e em vários outros títulos, esse é o seu trabalho! Como escritor Alan Moore é um dos melhores, mas no papel de Cassandra, o bruxo Alan Moore não passa de um tirador de sorte mequetrefe que só engana os bobos. Um canastrão!
Neste momento, todos nós que amamos super-heróis e os quadrinhos de todas as formas e que ainda não deixamos nossas mentes se corromperem pela vaidade e arrogância, tudo que temos de dizer é:
CALA A BOCA ALAN MOORE!