23 de ago de 2011

Grant Morrison quebrando tudo na Rolling Stone


Como você deve ter percebido, este blog se torna cada vez mais um blog de opinião e menos de notícia. Falta de tempo, nem preciso falar mais nada. Você também deve ter percebido que algumas figuras se tornam cada vez mais frequentes, como Grant Morrison e Alan Moore. Mas opinião de qualidade é o que busco mostrar aqui então a presença destes escritores é fundamental. Não posso fazer nada melhor do que isso.

Então vamos lá. Grant Morrison, como você já deve saber, esta na crista da onda da reformulação da DC. Ele será o responsável pela recriação do Superman, um dos maiores ícones dos quadrinhos. O escocês é responsável pelos roteiros de Action Comics #1. Ontem saiu uma entrevista dele para a revista Rolling Stone american que achei que não podia deixar de comentar.

Morrison fala sobre a suposta decadência da indústria de quadrinhos de super-herói, critica o pseudo intelectualismo de Chris Ware, detalha sua amizade com Mark Millar e trata de uma questão mais interessante ainda, o sexismo na DC Comics, onde sobrou até para o estupro-maníaco Alan Moore. Não preciso dizer que dessa vez concordei com cada palavra do careca.

Deixei de lado apenas alguns trechos sobre a vida pessoal do cara que eu acho que não interessam a ninguém. O original em inglês esta aqui. Leia também o longo perfil dele feito pela revista aqui. E não digam que não avisei.

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Você está prestes a relançar a Action Comics, um dos títulos mais longevos da DC. A sua reformulação do Superman será tão grande quanto a feita por John Byrne em 1986?

Sim, possivelmente. Provavelmente tanto quanto, embora ele tenha mudado as coisas consideravelmente. Eu não estou usando os uniformes, apenas jeans e camiseta, um Superman Bruce Springsteen. O Superman original, campeão dos oprimidos, o socialismo e outras coisas, eu queria um pouco disso.

Muitas pessoas foram consultadas sobre isso?

A DC me procurou em março dizendo que estariam relançando todo esse material e se eu queria fazer o Superman, e eu disse não, mas depois quando disseram: "Você faria Action Comics # 1?" Eu falei: 'Esse é um final bacana para Supergods ", então eu concordei, e fiquei muito surpreso por que eles me deixaram fazer tudo e mudar tudo tão radicalmente.

A DC está relançando toda a sua linha - há algum desespero por lá?

Sempre vai ter um pouco disso porque as vendas de quadrinhos estão muito baixas, as pessoas estão dispostas a tentar qualquer coisa nestes dias. Tudo está despencando. De mês em mês vai de mal a pior. Em maio, pela primeira vez em muito tempo, nenhum gibi vendeu mais de 100.000 cópias, portanto há um declínio.

Isso assusta você pessoalmente?

Apenas no sentido de que seria uma pena não escrever mais quadrinhos de super-heróis, mas, ao mesmo tempo, eu imagino que teria de fazer outra coisa, então não é tão assustador.

Você acha que esta é a espiral da morte?

Sim, um pouco, mas, mesmo assim, você sempre pode estar errado. Há um sentimento real de que as coisas estão mesmo saindo dos trilhos, para ser honesto. Quadrinhos de super-heróis, o conceito é um conceito bastante cruel, e ele esta se movendo, se desprendendo, como o primeiro estágio de um foguete.

Abandonando os quadrinhos?

E passando para filmes, onde pode ser mais poderoso, mais eficaz. A definição de um meme é uma ideia que quer se replicar, encontrar a melhor mídia através do qual se replicar, games, filmes. Seria uma pena, porque como eu disse no livro Supergods, uma das coisas mais surpreendentes sobre estes universos é que eles existem, há um continuum de papel que reflete a história, mas as pessoas não morrem, é como os Simpsons, as pessoas não envelhecem, elas apenas mudam.

A musica pop é a mesma coisa. Quando não esta vendendo as coisas vão caindo, mas não tem nada a ver com a qualidade. Nos quadrinhos, a qualidade atual é a maior que jamais houve, hoje há mais pessoas realmente boas no que fazem, fazendo o que fazem. Tudo está disponível de graça, acho que este é o verdadeiro problema, ninguém mais quer comprar nada. Sai alguma coisa e você vê imediatamente online e pode ler. É dessa maneira que as pessoas querem consumir a informação, as cores parecem mais bonitas. Acho que o problema é mais esse, mas é um problema pra todo mundo, não apenas pros quadrinhos, todo mundo ta começando a sentir isso.

Há muitos tipos de histórias em quadrinhos, mas seu livro Supergods só trata de super-heróis. É uma contra proposta a ideia de que os quadrinhos devem se desenvolver e superar essa coisa do super-herói?

Eu posso apreciar alguém como Chris Ware pela sua arte, que eu acho bonita, mas eu acho que a sua atitude fede. Parece ser a atitude de alguém realmente privilegiado, e sinceramente, tentar viver aqui, tentar viver em uma reserva indígena e calado, e ver toda aquela coisa niilista, realmente me irrita. É inútil pra todos nós e provém de pessoas que tem dinheiro e sucesso pra falar daquele jeito e mostrar aqueles aspectos da maneira que vivemos como um favor a todos os outros, é indefensável.

Então, eu nunca gostei desse material, sempre achei que realmente tenho algo da classe trabalhadora escocêsa contra o fato de que esse material foi feito por garotos universitários americanos privilegiados, e eles estão me dizendo que o mundo é insípido. "Cara, você ta me dizendo que o mundo é insípido?"' E isso não é útil, não leva ninguém a lugar nenhum. OK, é isso ai, e ai? O que você vai fazer com relação a isso, garoto universitário? Meu livro não é acadêmico. Não consigo entender esses caras do Comics Journal, eles me diminuíram, é apenas defensiva, esses CDFs!

É nisso que eu estou envolvido, e é desse jeito que, através dos meus olhos, é exaltado. Você pode olhar para a mesma coisa e ver apenas lixo, papel higiênico, eu estou olhando para isso e vendo anjos de William Blake. É dessa forma que se parece aos meus olhos, isso é tudo que tenho, não posso falar sobre isso de forma mais simples, mas posso falar sobre isso como um profissional do ramo, alguém que tem pensado nisso intensamente por um longo, longo tempo. E eu pensei: "O que posso fazer, um livro que fala sobre quadrinhos da maneira que Nick Kent fala sobre música," e esses caras, isso pelo menos lhe dá uma conexão pessoal com alguém que leva o assunto muito a sério.

Você ainda sai com seu ex-pupilo Mark Millar?

Não.

Houve um afastamento?

Conheci Mark quando ele tinha 18 anos, e eu realemente fui com a cara dele, por que ele ria de todas as minhas piadas. Ele tinha o mesmo senso de humor que eu tenho, ele é bem dark, e tem aquele senso de humor, então nos demos bem. Eu costumava ligar pra ele todos os dias, e nós terminamos fazendo alguns trabalhos juntos na 2000 AD, que ficaram legais. Era uma coisa divertida, nos encontravamos no pub e ficavamos bêbados e faziamos a tira do Big Dave, uma tira humorística, e ele obviamente estava tentando entrar para o mercado americano de quadrinhos, então eu o coloquei no Monstro do Pântano, eles me pediram pra fazer mas eu disse "vamos colocar o Mark, vamos dar um trampo pra ele", ele me consultava para fazer as histórias, e assim foi pelos anos 90.

Quando ele fez Authority, sua estrela começou a brilhar, e nesse ponto, ele sentiu que estava em minha sombra e devia sair e a maneira de conseguir isso seria fazendo essa separação bastante desagradável. Foi muito difícil, eu acho, mas ele tinha de seguir seu próprio caminho e ele não queria que eu fizesse parte, por que eu vi que muito do trabalho dele foi traçado e desenvolvido, até mesmo as sugestões de diálogos, por mim, até quando ele escreveu Os Supremos. Isso era visto por ele como uma diminuição de sua posição, mesmo que não fosse assim. Eu estava orgulhoso dele como um mentor. Ele se saiu bem sem mim, ele tem seu próprio estilo, faz seu próprio material.

[...]

Em Supergods, você foi muito gentil com Crise de Identidade do Brad Meltzer.

Eu tentei ser gentil porque eu gosto de Brad Meltzer. Ele é um cara legal. Eu tenho um monte de conversas interessantes com ele então eu tentei focar no que eu achava que era bom no gibi, e realmente havia bastante coisa boa quando eu o relí. A primeira vez que eu lí foi meio revoltante. Eu pensei que este era apenas ... por que? Que porra é essa, sério? Não era mesmo normal. Era ultrajante. Era absurdo por causa do Homem Borracha com seus braços dando várias voltas em torno do cadáver de sua esposa. Eu pensei: algo se rompeu aqui. Alguma coisa saiu muito errada nesta imagem.

A trama foi muito criticada, em parte por que as pessoas a viram como misógina. É difícil dizer, porque a maioria dos homens tenta evitar a misoginia, realmente eles evitam, neste mundo em que vivemos hoje. É difícil para mim acreditar que um graduado na faculdade tímido de óculos como Brad Meltzer, que é um romancista e um pai, poderia mesmo ser bizarramente misógino. Mas, infelizmente, quando você olha para esta personagem tão querida que, obviamente, sofreu um estupro anal no satélite da Liga da Justiça, você é levado ao ponto de não saber o que dizer.

Talvez seja pra melhorar isso é que a DC esta começando de novo agora

Mas eu não sei, tem muitas coisas, o sexismo na DC, pois quem trabalha nestes lugares são homems na maioria. Ninguém deveria tentar dizer que estamos tomando uma posição especificamente anti-mulher. Isso seria uma ignorância ou estupidez ou sabe-se lá Deus o quê. Por algum motivo, eu estava lendo umas edições do Marvelman escritas pelo Alan Moore. Ví uma coisa lá que eu não pude acreditar. Verifiquei que tinha duas merdas de estupros lá e ai eu pensei, quantas vezes alguém é estuprado em uma história de Alan Moore? E não consegui encontrar nenhuma onde alguém não fosse estuprado, exceto Tom Strong, que eu acredito ser um pastiche. Nós sabemos que Alan Moore não é um misógino, mas porra, ele é obcecado com estupro. Eu consegui fazer quadrinhos por trinta anos sem nenhum estupro!

Eu gosto do fato de você achar a palavra 'nerd' uma ofensa

Sim, nerds são aberrações de circo, decadentes aberrações de circo que comem cabeça de galinha. Eu vim do lado oposto. Quando uma pessoa chamava alguém de nerd, eu dizia: "Qual é a diferença entre alguém que coleciona quadrinhos e alguém que coleciona discos da Britney Spears ou alguém que coleciona coisas de futebol? Você não chamaria essas pessoas de nerds, então por que você esta chamando essas pessoas de nerds?" Nem todo mundo que gosta de quadrinhos os coleciona, existem outros hobbies. Eles não são diferentes da maioria das pessoas que consomem as coisas e as deixa de lado em um canto ou os coloca em uma gaveta, é isso o que eu estava tentando dizer. Qualquer um que se envolva com algo poderia ser chamado de nerd, mas não são chamados de nerd. É apenas uma palavra mais fácil de usar do que qualquer outra palavra.

[...]


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