8 de fev de 2012

Before Watchmen é o bigode da Mona Lisa

Rorschach sobre Before Watchmen

Lógico que tem muita coisa acontecendo por ai no mundo dos quadrinhos, mas a nóticia mais importante do último mês foi a confirmação dos prelúdios da série Watchmen pela DC Comics. Before Watchmen causou polêmica entre artistas, pesquisadores e fãs.

Catei por ai algumas das opiniões mais relevantes sobre o assunto, inclusive a de Alan Moore, e no final, dou a minha arrogante opinião.


O escritor J. Michael Straczynski defendeu o projeto:


"Muitas pessoas acham que esses personagens não deveriam ser tocados por mais ninguém, além de Alan Moore. Isso é perfeitamente compreensível em um nível emocional, mas falho em um nível lógico.

Baseado em durabilidade e reconhecimento, podem argumentar que o Superman é o maior personagem já criado para os quadrinhos, mas nem o Alan Moore ou qualquer outra pessoa sugeriu que ninguém mais além de Jerry Siegel e Joe Shuster poderia escrever histórias dele. Alan não recusou escrever o Monstro do Pântano, criado por Len Wein, e acabou fazendo um trabalho maravilhoso".

"O próprio Alan Moore passou a última década escrevendo ótimas histórias de personagens criados por outros escritores, incluindo Alice, Dorothy e Wendy (para a graphic novel Lost girls). Isso sem falar do Capitão Nemo, Homem Invisível, Jekyll e Hyde e Professor Moriarty (na série A Liga Extraordinária). Por que ele pode escrever personagens criados por outros, mas ninguém pode escrever os que ele criou?"

"No final, a aprovação ou não vinda dele não muda a linha narrativa da trama, pois a história precisa se manter por si própria. Se a história for ruim, não adianta ter a aprovação dele. E vice-versa. Seria bom se tivesse? Claro, eu adoraria. Sempre fui um grande fã do trabalho dele. Ele é o melhor de todos nós".


Peter David é a favor, com argumentos parecidos:


"Quando se fala de “criadores”, acredito que a maioria refere-se apenas a Alan Moore. O comentário de David Gibbons sobre a coisa toda, acredito, expressa uma ideia positiva sobre o trabalho como um tributo, uma homenagem, especialmente quando se considera que Watchmen começou sua vida criativa como uma atualização de personagens da Charlton; se tivesse sido com eles de verdade, então Moore não teria nada a dizer sobre propriedade, independente de seus “draconianos” contratos.

Acho que Moore está em terreno delicado ao dizer que a DC está simplesmente dependendo de ideias dele de 25 anos atrás, implicando que há uma espécie de falência criativa. Sim, Moore – quem nunca tive a honra de conhecer pessoalmente – está correto ao dizer que não há sequência para Moby Dick. Mas a posição de Moore é engraçada se considerarmos que ele pegou personagens de Júlio Verne e Bram Stoker e transformou todos em super-heróis; ele acabou pegando amados personagens literátios e transformou-os em obetos eróticos [Nota: David refere-se a Lost Girls]. O fato de haver domínio público nestes personagens faz com que não precise haver protestos contra essas ideias?

Considerando sua comparação com Moby Dick, aparentemente ele acha que não. Só por que uma corporação teve a ideia, ao invés de um único indivíduo, faz com que a ideia seja inferior? É um argumento ruim, considerando o fato de que a corporação quer usar uma propriedade que está em suas mãos. O fato de Moore ser tão veementemente contra outros autores pegando seus personagens – os quais são nada mais que pastiches dos criadores da Charlton Comics – diz o quanto L. Frank Braum reagiria ao ver o que Moore fez com Dorothy.

E se esse for o caso, as pessoas que protestaram contra este projeto do Watchmen devem reconsiderar as razões de sua ira. Pra mim, o anúncio da DC simplesmente significa que o trabalho de Alan Moore alcançou o status de “icônico”, tanto quanto Superman e o Monstro do Pântano – personagens com os quais o próprio Moore nos presenteou com algumas das melhores histórias já contadas. Vamos tocer para que o trabalho destas pessoas alcance – ou até supere – o que Moore alcançou."

Mark Millar é a melhor posição de quem ficou contra, mesmo que não dê pra confiar nele:

"Eu acho que é o que acontece nos comics. Tenho sorte de ter saído [das grandes editoras] para fazer o “Millarworld”, assim ninguém pode vir aqui e FODER com Kick-Ass. Se alguém irá ferrar com ele, será eu. E eu gosto assim. É uma pena, mas nos quadrinhos, há a coisa de: Se você cria Batman, Superman ou Homem Aranha, alguém vai tirar de você por uma quantia relativamente pequena de dinheiro, e fazer milhões com isso.

E isso é historicamente o que acontece nos comics. Tenho muita sorte de ter nascido num tempo onde eu e o artista controlamos tudo. Entre nós dividimos meio a meio. Nós somos donos de tudo, então não acontecerá conosco. Mas o pobre Alan Moore esteve no fim daquela geração de caras que foram sacaneados, então Watchmen é da Warner. E claro que eles iriam fazer algo com Watchmen eventualmente. Estas HQs podem ser boas, ou não. Mas eu meio que sinto que, se for para ler Watchmen, eu leio o original.

Para mim, soa desnecessário, e estou dizendo isso como o cara que escreveu Superman, Capitão América e os Supremos. Assim como todos nós fizemos, creio. Sou leal. Eu amo Alan Moore e amo Watchmen. Minha curiosidade não é tanta para eu conferir [Before Watchmen]. Mas isso é o que é legal sobre criador ser dono da obra. Fica um pouco mais honesto – Eu faço, ganho o dinheiro, e ninguém vem tirar de mim."


O escritor Mark Waid entrou na discussão e também ficou contra, indo mais fundo na questão:


"Não estou aqui para tomar partido de nenhum dos lados e nem pra discutir se a DC deveria ou não publicar novas histórias com Watchmen, mas acho que a linha de raciocínio do Straczynski é falha".

"Entendo os motivos da DC, historicamente, ter tido problemas em lidar com o Alan Moore e vice-versa. Os dois lados acreditam que o outro agiu de má-fé em determinados momentos. Seja essa crença verdadeira ou não, esse não é o ponto agora. Falar que Alan é um doido ou que a DC deliberadamente enganou Moore e Gibbons apenas simplifica absurdamente a situação".

"Em 1985, os encadernados eram uma novidade tão grande quanto os quadrinhos digitais são atualmente. Ninguém naquela época sonhava que uma revista em quadrinhos continuaria sendo republicada durante 25 anos."

"O mercado digital é uma ótima comparação, assim como centenas de autores, eu assinei contratos que previam uma revisão dos termos depois de um certo período do material ficar fora de catálogo. Era uma época em que ninguém podia prever as vendas digitais, que nunca deixam de acontecer. Como definir que uma revista deixou de ser impressa em um mundo digital? Baseada nesses contratos antigos, atualmente uma editora pode jogar uma história para ser vendida digitalmente por custo quase zero e sem riscos financeiros apenas para manter os direitos autorais sobre determinada obra perpetuamente, mesmo que não venda uma única vez".

E comentou o fato da DC ter oferecido, anos atrás, os direitos sobre Watchmen a Alan Moore, caso ele escrevesse uma continuação:

"Não acho que tenham oferecido compensação financeira ou completa liberdade criativa. Tenho certeza de que ofereceram toneladas de dinheiro e alguma liberdade".

"Como uma pessoa que fazia parte da equipe da DC na época em que Watchmen foi produzido e por ter podido testemunhar em primeira mão muitos dos problemas entre as duas partes, posso afirmar que é uma situação muito complexa, na qual os dois lados têm razões válidas".

Por fim o próprio Alan Moore rebateu as opiniões anteriores, mas não apresentou argumentos claros:


“Existe uma tradição de encontros entre personagens esquecidos do passado… na literatura eu diria que é diferente. Eu diria, e nem todos podem concordar, que não estou adaptando estes personagens. Não estou fazendo uma readaptação de Drácula ou As Minas do Rei Salomão. Estou roubando estes personagens. Há uma diferença entre adaptá-los, o que é mal, e realmente roubá-los, o que, já que todo mundo está morto e seus nomes não são citados, está ok pra mim. Não estou enganando ninguém aqui, eu realmente acredito que na literatura há uma tradição que vem desde Jasão e os Argonautas de combinar personagens literários…

É irresistível fazer estes mash-ups. Eles são feitos há séculos e eu acredito ser parte de uma orgulhosa tradição literária por fazer esse tipo de coisa. Isso é muito diferente de pegar personagens de quadrinhos criados por velhos traídos… é isto que penso do assunto".



Então basicamente as opiniões ficaram polarizadas entre aqueles que acham que Moore está sendo hipócrita em não aceitar Before Watchmen, sendo que ele também trabalha com uma adaptação de personagens alheios, por isso sua obra pode ser adaptada por outros escritores; e aqueles que acham que a DC está apenas se aproveitando das criações dele depois de tê-lo feito aceitar um contrato abusivo, em uma época em que os artistas de quadrinhos não tinham a opção de manter os direitos sobre suas criações.

Moore respondeu apenas que 6 não é meia dúzia: que ele não adapta, mas "rouba" os personagens dos outros, por isso suas criações estão sendo sacaneadas por uma corporação ávida por dinheiro, que representa uma indústria em falência criativa.

O que eu acho disso tudo é que Before Watchmen não é antiético ou abusivo pelos motivos apresentados acima por Peter David e J. Michael Straczynski. E também não é a coisa mais correta a se fazer pelas razões apontadas por Mark Millar e Mark Waid. Ambas as partes tem um quê de razão. Mas no final, eu acho que o projeto não somente deve ser feito, ele precisa ser feito, e logo!

Before Watchmen é necessário, e não é só para revigorar a indústria dos quadrinhos do ponto de vista comercial, mas também para reenergizar seu aspecto criativo. Acredito que a obra de Alan Moore se tornou mais do que icônica, ela já é um cânone, um modelo insuperável para os quadrinhos de super-heróis que acorrenta os criadores atuais ao passado, e esse passado precisa ser superado. O que Moore chama de falência criativa, quando afirma que a indústria se apega a ideias que ele teve 25 anos atrás, é na verdade uma consequência da reverência e respeito exagerados que se tem pelo trabalho dele, e isso se tornou dependência, escravidão.

Na história da arte houve grandes momentos de ruptura. O Renascimento, a passagem da literatura clássica para o romantismo e o mais recente, o surgimento do que chamamos de arte moderna. Um dos momentos símbolo desse período ocorreu em 1919, quando o mundo celebrava os 400 anos da morte de Leonardo da Vinci. O artista dadaista Marcel Duchamp pegou um cartão postal com a imagem da Mona Lisa, e incluiu nela um bigode. O mundo inteiro ficou escandalizado, inúmeras interpretações foram feitas, mas só a uma conclusão se chegou: o ato de Duchamp simbolizava o rompimento completo dos artistas modernos com todos os conceitos consagrados sobre arte. Todos os modelos, ideias e obras do passado teriam de ser revistas e seu valor para o momento presente passou a ser questionado. Isso tudo abriu um amplo caminho para novas criações, a partir da superação dos padrões clássicos. Em vez de escravizados por cânones dos gênios da antiguidade, os artistas estavam livres novamente. A própria Mona Lisa em sua época havia sido revolucionária, quando foi uma das obras marcantes do Renascimento.

Talvez seja este o momento dos comics superarem o peso das grandes obras dos anos oitenta, que 25 anos atrás revolucionaram essa indústria e criaram novos conceitos, todos eles já bastante explorados nos dias atuais. Mexer em Watchmen, muito além de uma empreitada comercial antiética, pode ser a oportunidade de destruir aquilo que essas obras tem de sagrado e intocável, e com isso abrir novos espaços conceituais para o trabalho criativo. Mais do que nunca é neste momento em que a indústria necessita disso, quando, com as plataformas tradicionais de vendas e distribuição em colapso, ela precisa se renovar, pra não morrer.

Em Watchmen, quando Rorschach planeja denunciar a conspiração assassina de Ozymandias e põe em risco a paz mundial e o surgimento de uma nova ordem, um novo mundo, ele é morto pelo Doutor Manhatam, com seu próprio consentimento. Rorschach diz apenas "Faça!" e Manhatan o desintegra. Ele sabe que não tem um lugar no novo mundo planejado por Adrian Veidt, sabe que precisa ser superado, e aceita morrer. Chegou a hora dos criadores e fãs de quadrinhos aceitarem que Watchmen precisa ser superado, para que coisas novas possam surgir. Esta na hora do próprio Alan Moore aceitar isso, se ele realmente deseja que as ideias de 25 anos atrás sejam superadas e novas ideias surjam.

Before Watchmen, se for levado a sério e produzir boas e inovadoras histórias e muito dinheiro, será um grande avanço para a indústria de super-heróis, uma prova de que ideias de 25 anos atrás não nos prendem e põe medo. Se produzir apenas histórias ruins e muito dinheiro, será igualmente um grande avanço, desde que destrua a escravidão e dependência de um momento criativo que já se esgotou e faz parte do passado. Será um bigode na Mona Lisa dos quadrinhos.


...

2 Comentários:

Multini disse...

Cara, falou tudo, concordo plenamente!
Até porque sou a favor do projeto mesmo que seja puramente comercial, pois muitas obras-primas nasceram porque um artista precisava de dinheiro e topou um trabalho. Apesar de inumeras críticas ao sistema capitalista de produção, não posso deixar de argumentar que uma de suas melhores qualidade é a produção cultural, que mesmo fazendo muito lixo, produz de tempos em tempos trabalhos transcedentais.

Gabriel G; disse...

"Chegou a hora dos criadores e fãs de quadrinhos aceitarem que Watchmen precisa ser superado, para que coisas novas possam surgir. "
Se produzir apenas histórias ruins e muito dinheiro, será igualmente um grande avanço, desde que destrua a escravidão e dependência de um momento criativo que já se esgotou e faz parte do passado. Será um bigode na Mona Lisa dos quadrinhos."

Desculpe, mas é forçação de barra dizer que uma continuação é "aceitar como superado" -- muito pelo contrário: é continuar se alimentando do cadáver. Criar coisas completamente novas é que é "superar". "Escravidão e dependência" é JUSTAMENTE o que Watchman 2 é.
"Bigode na Mona Lisa" (ato de Marcel Duchamp) é uma analogia que simplesmente não se aplica no caso é uma paródia, uma crítica -- aliás, antes de tudo uma crítica ao sistema em que a obra é colocada (não propriamente à obra).
Não é o que se fará; sinto muito. Se Watchmen 2 for comercial, não será uma "dessacralização" de Watchmen, mas sim um produto derivativo que se alimentará justamente de sua "sacralização" anterior! Mais parecido, enfim, com vender santinho de plástico na porta da igreja do que com qualquer gesto "iconoclasta".

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