9 de jan de 2012

Muchacha - Quando a confusão se faz passar por estética


Outro dia uma pessoa do Facebook me recomendou a leitura da graphic novel Muchacha, de Laerte, lançada ano passado pela editora Cia das Letras. Pois bem, eu procurei e lí.

Muchacha é na verdade uma coletânea de páginas publicadas por Laerte no Jornal Folha de São Paulo, lançadas agora no formato de um album com 96 páginas. Conta a história de um ator de seriados de TV dos anos 50 que enlouquece quando seu programa perde o patrocínio e passa a seguir novos rumos, até ser substituído por um desenho animado comunista. O ator então começa a confundir ficção e realidade, achando que é o seu personagem, o Capitão Tigre. No meio da trama surgem outras figuras que representam os clichês desses seriados antigos, mas de uma forma pouco convencional: o escritor do seriado, a mocinha e o vilão. O cotidiano deles enquanto atores também é apresentado, como uma outra camada da história. O desenho animado comunista, lógico, também intercala os vários níveis da narrativa. No meio surge a misteriosa cantora Muchacha e um viajante do futuro (ano 2000) chamado Professor Século, que levam a trama a várias reviravoltas.

Laerte realizou um trabalho em que as incessantes mudanças de foco narrativo, se não são completamente desnecessárias, são exageradas e mal conduzidas, e tornam o resultado final confuso. Querendo enfatizar uma ambiguidade entre o real e o imaginário, ele acabou esvaziando seu discurso de significado e criou uma espécie de cacofonia narrativa em que o leitor se vê obrigado a buscar entender o que seria dito, mas não há nada dito alí além do ruído. Real ou imaginário? No final essa questão carece de verossimilhança, pois a falta de habilidade do artista na desconstrução desse discurso leva tudo a uma série mal ordenada de flashs narrativos, que em suas entrelinhas não apresentam mais do que meras sensações de estranhamento pelas referências aos clichês de seriados.

Muchacha é uma obra aparentemente complexa, mas na verdade isto ocorre porque sua forma esconde a atual incapacidade do autor de dar uma direção coesa ao seu foco narrativo e também por uma inabilidade em trabalhar com um raciocínio linear. Pra piorar tudo isso, por ter sido publicada de forma serializada, Muchacha não teria uma coesão interna que o faria funcionar como graphic novel.

Ultimamente Laerte parece querer dar ao seu trabalho um novo sentido, muito mais experimental e intimista, buscando criar sensações e fugindo ao raciocínio linear necessário ao humor que o consagrou. Mas o que se vê por Muchacha é a constatação de que uma certa confusão mental vem dominando o autor. Sua obssessão por questões ideológicas, por travestismo (chamada por ele de forma eufemística de "cross-dressing", em sua entrevistas) e memórias pessoais, vem afetando a qualidade de seu trabalho. Em Muchacha até o trabalho gráfico é inferior, atingindo momentos bem pobres e visualmente desagradáveis, principalmente nos trechos do desenho animado.

Aliando a isso sua militância ideológica incessante e um certo desprezo pelos gêneros tradicionais de narrativa, que aqui ele busca satirizar e diminuir, utilizando como ponto de partida os seriados clássicos de TV dos anos 1950, Muchacha se tornou uma narrativa cuja leitura para muitos pode parecer difícil ou rica de níveis interpretativos, mas que, em suma, é vazia.

Nos quadrinhos, e acredito que na arte em geral, quando se busca romper com os padrões estéticos estabelecidos, o simples erro pode se passar por um artifício estético. Laerte é um artista que possui, ou já possuiu , um domínio do meio, mas estes seus últimos trabalhos parecem ser um verdadeiro retrato de sua mente, sua ideologia, ações, falas recentes e todo o legado cultural de sua geração: é confuso e supervalorizado.

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3 Comentários:

Laerte disse...

Concordo com boa parte do que você diz, Mauro - sobre o livro e sobre o meu trampo…
Só quero lembrar que tenho procurado afirmar a palavra e a condição de travesti em entrevistas. Quem insiste em “crossdressing” (termo que também acho eufemístico ou coisa parecida) tem sido a mídia, ou parte dela.
Beijo!
Laerte

calazans disse...

No cinema também pratica-se cacofonias e multiplas narrativas fragmentadas ou incompletas-elipticas para simular profundidade e complexidade, 90% dos pseudo-intelectuais não entende metade e acha que o autor ou cineasta é muito denso, profundo, inteligente...sugiro comprar a TRILOGIA NIKOPOL a ser lançada no Brasil em 2012 mas já a venda em sites de Portugal , de um autor verdadeiramente denso e profundo- ENKI BILAL !

Fernando Aoki disse...

Calazans, esqueceu de dizer sobre o Bilal "denso e profundamente CHATO".

Prefiro antes a simplicidade das idéias de um François Burgeon, na trilogia d"Os Companheiros do Crepúsculo". Ou mesmo de uma certa inventividade exacerbada do trabalho dele com Delacroix, "O Ciclo de Cyan". Se pôde ler, sabe que essas obras têm consistência e qualidade. Se não, as recomendo!

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