16 de nov de 2011

Frank Miller é o cara! (Ou um otário?)


Para contribuir com os esforços de guerra do seu país, sendo ele muito velho para servir no front de batalha, Frank Miller produziu Holy Terror, graphic novel que mostra uma visão simplista da guerra contra o terror, onde todos os islâmicos são terroristas perigosos caçados pelo herói patriota The Fixer. A obra foi acusada de islamofobia.

A superficialidade dos argumentos de Miller foi confessada por ele mesmo, quando disse que não sabe nada sobre o Islã, mas que a Al Quaeda está por ai tentando destruir a América e ele quer que esses malditos queimem no inferno!

Agora Miller aproveitou o seu blog para declarar impropérios contra o movimento Ocupe Wall Street, que protesta contra o capitalismo, em um texto típico de blogs, ele não economizou ofensas:


Todo mundo está sendo educado até demais com esse disparate:

O movimento “Ocupe”, esteja ele se mostrando em Wall Street ou nas ruas de Oakland (que, com covardia indescritível, o abraçou) é qualquer coisa menos um exercício de nossa abençoada Primeira Emenda [Liberdade de Expressão]. “Ocupe” não é nada além de um bando de imbecis, ladrões e estupradores, um rebanho de foras-da-lei, alimentado pela nostalgia da era de Woodstock e uma honradez falsa e pútrida. Esses palhaços não podem fazer nada além de prejudicar a América.

“Ocupe” não é nada exceto uma tentativa grosseira e mal-articulada de anarquia, na medida em que o “movimento” -- HAH! Grande “movimento”, exceto se a palavra “intestinal” vier junta -- não é nada mais do que uma manifestação de mau gosto de um bando de moleques mimados de iPhone e iPad que deveriam parar de atrapalhar as pessoas que trabalham e arrumar um emprego para eles mesmos. Isso não é um levante popular. Isso é lixo. E Deus sabe que eles estão vomitando seu lixo -- tanto política quanto fisicamente -- de todas as maneiras que eles podem encontrar.

Acorde, gentalha. A América está em guerra contra um inimigo cruel. Talvez, entre rodadas de autopiedade e todos os outros petiscos saborosos de narcisismo dos quais vocês têm se servido em seus mundinhos protegidos e confortáveis, vocês tenham ouvido termos como Al-Qaeda e Islamicismo. E esse inimigo meu -- não seu, aparentemente -- deve estar casquinando à beça, se não estiver gargalhando até perder o fôlego, de seu espetáculo vão, infantil e autodestrutivo.

Em nome da decência, voltem para a casa de seus pais, seus perdedores. Voltem para os porões de suas mamães e joguem com seus Lordes do Warcraft.

Ou, melhor ainda, alistem-se pra valer. Talvez nossos militares possam colocar alguns de vocês em forma.

Entretanto, talvez eles não deixem vocês, bebezões, com seus iPhones. Tentem agir como soldados. Otários.


Assim ele conseguiu causar mais polêmica, inúmeros fãs declararam boicote as suas obras, muitos o consideraram morto e muitos dizem que ele ficou caduco, foi abduzido, ou até relacionam suas opiniões políticas a decadência de sua arte!

Isso tudo me lembrou as inúmeras declarações polêmicas de outro ícone dos quadrinhos dos anos oitenta, Alan Moore, que quando dá entrevistas sempre fala bobagens a rodo sobre tudo, desde a origem pitagórica da cabalah até a fome no Haiti, depois declara que não assiste TV nem lê um livro há anos! Muitos artistas distribuem opiniões pelos meios de comunicação e são levados demais a sério.

Ai está o erro! O que a obra de um artista tem a ver com suas posições sobre qualquer assunto político? O fato de Alan Moore ser de esquerda, anarquista ou seja lá o que for, e o fato de Frank Miller ser um reacionário, conservador ou antislâmico, vai me impedir de apreciar seus quadrinhos?

Eu concordo com algumas coisas que Alan Moore fala, mas reconheço que muitas vezes ele não faz nada além de expressar opiniões pessoais, frustrações e coisas que não dizem respeito a sua obra. E mesmo que eu não concorde com muitas das ideias que ele professa, não vou deixar de ler suas HQs por esse motivo. Da mesma forma, muitas coisas que Frank Miller anda proferindo podem fazer sentido pra mim, mas muitas não fazem, e não é por isso que vou deixar de ler seu trabalho ou considerá-lo um velho louco.

O que ele fala sobre a Al Qaeda e a guerra ao terrorismo parece muito ingênuo, radical ao extremo, é o mesmo pensamento que levaria um jovem palestino frustrado a se tornar um homem-bomba: Falta de informação, raiva e necessidade de dar um sentido á vida. Quando ele fala que decidiu fazer uma obra-propaganda contra o islamicismo e a Al Qaeda por ser velho demais pra servir as forças armadas, expressa esse intento.

Mas em se tratando desses movimentos de "ocupar", aí sim, Frank Miller parece estar certo, e muito!

Estive em um desses acampamentos, em São Paulo, e ví que lá não há nada além de pessoas que se sentem coitadinhas, vítimas da sociedade, tentando se juntar á ralé pra se vitimizarem mais ainda. São pessoas que em vez de procurar um emprego, preferem protestar contra a falta de emprego. Em vez de construir uma sociedade mais justa, imaginam a destruição desta que já existe. Buscam em sí os defeitos mais emblemáticos, os seus problemas pessoais e até mesmo suas principais características individuais, como raça e gênero, e os transformam em uma "causa" que logicamente necessita de uma solução através da mudança da sociedade.

Ví absurdos como brancos da classe média paulistana assumindo "causas" de índios da Amazônia, de moradores de rua e até de animais! Dessa forma eles conseguem ter uma "causa" pela qual lutar, se rebaixando! É um espetáculo de autopiedade, discursos prontos e mimos que nos fazem pensar que aquilo alí não passa de uma exteriorização de problemas psicológicos. Parecem mesmo crianças fazendo birra que, por não terem atenção de seus pais, decidiram sair a rua com seus brinquedinhos (iPhones, iPads) e fazer um barraco grande pra ter um pouco de afeição. Enquanto isso, os milhões de adultos trabalhadores seguem suas vidas normalmente.

Ao mesmo tempo são pessoas criadas com danonynho e todos os confortos (proporcionados pelo capitalismo por eles odiado) que precisam viver algo, ter alguma experiência radical que os video games e babás eletrônicas não proporcionam. São pessoas imaturas que precisam sofrer um pouco, por isso decidiram virar mendigos debaixo do viaduto, mas eles mascaram isso com "causas" pseudointelectuais.

Falta de informação, raiva e necessidade de dar um sentido á vida!

Esses movimentos de Ocupar não passam de uma revolta imatura de pessoas sem sentido na vida. Elas poderiam ir pra guerra, Frank Miller acertou, mas não acreditam nessa ideia da forma que ele acredita, por isso preferem os seus protestos, seu inimigo imaginário, sua disciplina própria, o que pra eles é uma guerra.

Frank Miller foi grosseiro, mas está certo em muitos pontos. E mesmo que ele estivesse errado, eu não deixaria de ler seus quadrinhos, mesmo que estes estejam impregnados de qualquer crença. Vou continuar a analisá-los pelo que são: histórias em quadrinhos! Assim como Alan Moore não é nenhum guru, mas um escritor de roteiros, Robert Crumb não é mestre em sexualidade, mas um artista, Frank Miller é quadrinista e não político. Não posso esperar que ele seja especialista em terrorismo ou movimentos sociais, nem que ele seja um santo politicamente correto.

Da mesma forma não vou deixar de ver os filmes de Serguei Einseintein por ele ter sido um comunista, não posso negar que Leni Riefenstahl era uma grande cineasta por ela ter sido nazista, não vou deixar de ler Charles Bukowski por ele ter sido um grande filho-da-mãe em todos os sentidos! Não vou parar de ler Rimbaud e William Burroughs por eles terem sido viados!

Arte é arte e deve existir uma separação entre o artista e a sua obra. Não se pode boicotar Frank Miller porque ele escreve e fala o que vem a cabeça. Ele não é O cara e nem um Otário, é apenas mais um escrevendo um blog e dando opinião sobre tudo, exatamente como eu estou fazendo agora.

...

1 Comentário:

Rogério Olivieri (Raul) disse...

hehehe... Esse cara é foda!

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