9 de set de 2011

Action Comics #1 mostra marvelização da DC

Há dois anos que a DC Comics amarga o segundo lugar nas vendas de quadrinhos nos EUA. Com a exceção de Batman, a DC também não conseguiu emplacar grandes sucessos na onda de adaptações de quadrinhos para o cinema. Uma atmosfera sombria de fracasso deve ter se insinuado na mente dos criadores e executivos da empresa. E a solução? É óbvia! Imitar a concorrente.

Uma DC marvelizada é o que se vê neste Action Comics #1, lançamento de Grant Morrison e Rags Morales. O projeto faz parte da reformulação quase completa de todos os gibis da editora e mostra uma nova versão do Superman, seu principal ícone. O objetivo do escritor Grant Morrison foi atualizar o personagem, traze-lo para nossa época e criar maior empatia com o público.

E empatia foi mesmo a palavra chave para a recriação de Superman. Após muitos anos sendo retratado como um personagem superpoderoso, poderoso até demais, quase um Deus que via os humanos do alto de seu panteão inatingível, o Homem de Aço despenca lá de cima , ou melhor dizendo, é atirado Olimpo abaixo para o mundo dos homens comuns. E para quê? Para que o público se identificasse mais com o personagem emocionalmente.

É assim que vemos neste primeiro número da nova Action Comics um Superman com um uniforme que parece mais de um adolescente tentando imitar seus super-heróis preferidos: apenas camiseta com um símbolo, uma capa singela nas costas, calça jeans e bota de cano curto, sem colante e cueca por cima da calça. Seus poderes não são tão grandes: ele pode saltar prédios, tem visão raio-x, supervelocidade, superforça, mas não pode atirar planetas por aí, não pode voar e não parece um sábio de ponderação e equilíbrio. Pelo contrário, este Superman é impulsivo, indeciso, arrogante e pouco voluntarioso. Ele é como um adolescente. Pega porrada, comete erros e sangra.

Seu alter ego humano ainda é o mesmo Clark Kent tímido e apagado, mas chega a ser pior. Enquanto o Clark que conheciamos era um reporter bem sucedido, esta nova versão é mais parecida com um caipira que chegou a cidade a pouco tempo e ainda não conseguiu sua grande chance. Ele mora em um cafofo medíocre, um mouquifo, deve aluguel, vive as turras com problemas financeiros, trabalha em um jornal de segunda categoria, se veste mal e aparenta não comer um bife a uns três dias. Quem não vai se identificar?

Empatia. Esta foi a palavra chave para a criação do Universo Marvel! Quando Stan Lee lançou o Quarteto Fantástico em 1961, ele pensou em criar super-heróis que gerassem uma identificação com o leitor, que não fossem como os heróis da DC Comics, que sempre se pareciam mais com Deuses em um panteão vivendo sagas cósmicas. Lee criou heróis com os problemas e anseios dos homens comuns, dos adolescentes e crianças daquela época. Heróis que se fossem adultos poderiam parecer seus pais ou seus professores, e que se fossem jovens poderiam parecer com os próprios leitores. A chave do sucesso e originalidade da Marvel sempre foi essa, repetindo-se em X-Men, Homem Aranha e todos os grandes ícones da editora.

Este novo Superman de Grant Morrison me pareceu um personagem da Marvel clássica de Stan Lee. Morrison afirma ter se reportado a Era de Ouro, quando o personagem não tinha tantos poderes, cuidava de questões comuns como o crime organizado, políticos corruptos, homens que batiam em suas esposas. Sem dúvida que sim. Mas esta sua abordagem também se destina a uma jogada comercial, superar as baixas vendas, e, lógico, peitar a Marvel. Para conseguir isso, uma das suas principais ferramentas foi buscar a identificação emocional do personagem com um público que cada vez mais se afasta das HQs.

Hoje os EUA vivem um momento de insegurança, com as pessoas perdendo seus empregos, problemas sociais aumentando, políticos não respondendo as espectativas, o patriotismo em baixa. Este espírito de época se assemelha em muito ao que existia no início da Era de Ouro dos quadrinhos, no final da década de 1930. Morrison imaginou que trazer Superman para mais próximo da realidade desse homem comum de hoje, que tem problemas semelhantes ao homem da Era de Ouro, poderia ser a chave do sucesso, por isso ele pegou as características que estavam presentes no herói em seu início.

Em 1938, antes da Guerra e ainda sofrendo os efeitos de uma crise econômica devastadora, os americanos precisavam e receberam Superman como um símbolo de heroismo, hoje mais do que nunca a América necessita de uma figura heroica, um salvador, e a história anda em círculos.


Na trama, Superman obriga um empresário corruPTo a confessar crimes, como já vimos no preview, enfrenta a polícia. Depois volta pro seu apê pobre e insignificante na identidade de Clark Kent, para pagar o aluguel que deve. Através de comentários do senhorio, sabemos que o tal Superman enfrenta skinheads e espancadores de mulheres, nada de supervilões. Neste novo Universo DC esta coisa ainda não existe. Ele não é um Deus, a não ser que seja um Deus lowbrow, e seu Olimpo seja um cafofo sem TV.

Depois vemos uma Lois Lane trabalhando para o Daily Planet com Jimmy Olsen, Clark trabalha no jornal rival. Lois e Jimmy pegam um trem em busca de um furo jornalístico mas vão cair em um plano de Lex Luthor para pegar o Superman. Luthor aparece em cenas paralelas com membros do governo que planejam deter o herói. Luthor, como sempre, é uma figura incrível, terrível, superinteligente e amoral.

Esta é a história, não vou contar o final, lógico. A narrativa é convencional, mas tem bastante ação, bons diálogos. É muito menos superficial do que Justice League #1. Se as primeiras cenas que vimos no preview empolgam, o restante nos submerge no conhecimento dos personagens. Não há como não gostar deste Superman meio Peter Parker, meio Marvel. Não há nada demais na história, como eu já acho que devem ser todos os 52 gibis desta reformulação, medianos, mas também não há nada de menos.

Superman desceu de seu posto mais alto de Deus dos super-heróis, ou foi atirado lá de cima. Se essa estratégia da DC de tentar criar mais empatia com os leitores imitando a concorrência vai dar certo eu não sei. Ultimamente tenho duvidado por causa da aparição de uma mulher misteriosa em todas as HQs. Ao que parece a própria DC esta insegura e criou uma porta de saída para que, se a reformulação não emplacar, eles possam ter um artifício de criar uma grande saga e voltar a ser tudo como era antes. Se eles próprios se sentem inseguros, o que nós podemos dizer?

Que esta tentativa de salvação renda boas histórias é tudo que desejo, e este Superman mais próximo de todos nós definitivamente me agradou. Parabéns a Morrison.



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2 Comentários:

Alessio Esteves disse...

Amigo,

Você comprou a edição digital desta revista ou leu via scan?

bruce disse...

Nivelar por baixo significa "marvelizar", pelo visto.
Isso me lembra a época em que o Super ficou eletrico e tals...
Daqui a algum tempo tudo volta ao normal.

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