18 de fev de 2011

O final de Watchmen, de onde Alan Moore tirou a ideia?


"Incapaz de unir o mundo pela conquista... o método de Alexandre... eu o enganaria, pregando a maior peça da história, e faria com que corresse rumo a salvação."

Adrian Veidt

Inspiração! Criatividade! Eis as palavras mais intrigantes de todas as artes. De onde os artistas tiram suas ideias? De onde vem as concepções mirabolantes que inflamam nossa mente? De onde os escritores, pintores e cineastas trazem as bases das criações que vão permear nossa imaginação durante anos?

Nós temos Watchmen, uma das maiores obras das Histórias em Quadrinhos de todos os tempos, uma unanimidade de público e crítica. Muita coisa já foi dita pelos especialistas no gênero. Todo mundo já sabe que os personagens da série foram baseado em antigos personagens da Charlton Comics, isto não é nenhuma novidade. Sabemos também que Alan Moore se utilizou da teoria do caos, da física quantica e da psicologia junguiana na composição de alguns episódios.

No entanto, há uma particularidade no enredo da série que sempre chama muita atenção da crítica, porém nunca foi objeto de uma análise mais depurada, e os motivos me parecem obscuros.

Todos reclamam do final de Watchmen.

Alguns dizem que o final tem pouca ação, outros que não tem um clímax adequado ou é muito óbvio, outros dizem que não tem nada a ver com o desenrolar da trama.

Chegamos ao ponto do final da história ser modificado na adaptação cinematográfica (que eu ainda não vi até hoje). Isto felicitou muitos fãs, mas trouxe enorme descontentamento ao autor da obra.

Mas aqui vamos nos ater ao enredo dos quadrinhos e tentar achar a inspiração original do escritor Alan Moore para conceber o final de uma das maiores HQs de todos os tempos!

Primeiro, relembrando a trama:

Estamos em 1985, os super heróis existem de verdade, o mundo esta mergulhado na Guerra Fria, EUA e União Soviética disputam o domínio. Os EUA tem um trunfo, é o Dr Manhatan, um super herói de verdade que possui poderes sub-atômicos. Existem super heróis humanos, mas sua atuação esta proibida por lei.

De repente, um deles é assassinado, o Comediante, um veterano da guerra do Vietnã que trabalhou em serviços escusos para o governo americano.

Rorschach, um dos heróis renegados, decide investigar e desconfia de uma conspiração para matar velhos heróis. Ao mesmo tempo em que vemos o mundo muito próximo de uma guerra nuclear entre EUA e União Soviética, pelo desequilíbrio dos poderes motivado pelo exílio do Dr. Manhattan em marte.

Após muita investigação, descobrimos que um dos heróis antigos, Adrian Veidt, conhecido como Ozymandias, arquitetou um plano para promover a união do mundo comunista com o capitalista, possibilitando dessa forma a paz mundial. E teve que eliminar o Comediante por que ele soube do plano por acaso.



Adrian Veidt foi inspirado por Alexandre, O Grande, o herói histórico que tentou eliminar as dicotomias entre ocidente e oriente, unindo Persas e Macedônicos. Ozimandyas reuniu cientistas e artistas, que trabalharam secretamente em uma ilha para criar e teletransportar uma lula gigante geneticamente modificada para o centro de Nova York!

A catástrofe mata milhões de pessoas e cria a ilusão de que estaria acontecendo uma invasão alienigena, gerando comoção mundial e finalmente promovendo a união entre os blocos comunista e capitalista, que cessam suas hostilidades por um bem comum. Desta forma o ideal de Adrian Veidt de paz e união global se tornam reais!

Este final da história vem sendo criticado durante anos como sendo um anticlimax dos piores, uma obviedade sem graça. Como discordo dessa posição, sempre quis encontrar as origens primordiais das ideias de Alan Moore para compor o final da trama, que pra mim na verdade era a parte mais interessante e inteligente de Watchmen.

Eis que na semana passada descobri aquela que pode ser a fonte para a criação deste tão polêmico final, os fatos que vou narrar agora são reais, acompanhem-me:

Em 1963, durante a Guerra do Vietnam, um grupo de 15 obscuros cientistas teria se reunido como um Grupo de Estudos Especiais financiado pelo governo americano em Iron Mountain, um bunker nuclear subterrâneo nos EUA, e durante três anos eles teriam estudado a possibilidade de um mundo em que não existissem guerras, a possibilidade de um mundo pacífico.

Eles chegaram a conclusão de que a guerra seria necessária para que os governos mantivessem seu poder, mas tendo em vista que os conflitos iminentes ameaçavam destruir o mundo em uma hecatombe nuclear, sendo aquela época o auge da Guerra Fria, seria necessário encontrar um substitutivo econômico, sociológico e psicológico para a guerra.

A conclusão destes estudos seria de que as duas melhores possibilidades de substituir a guerra como uma forma de coesão social seriam:

1 - Criar a ilusão de uma suposta invasão alienigena no Planeta Terra para unir todos os povos do mundo em torno de uma única ideia: o combate ao inimigo exterior.

2 - Uma grande catástrofe natural causada pela poluição que ameaçasse o mundo inteiro poderia unir todos os povos para a obediência a um governo mundial.

Estas duas soluções propostas trariam o substitutivo perfeito para as guerras, emulando todos os conflitos bélicos nos parâmetros econômicos, sociológicos e psicológicos.

Um livro com estas conclusões foi publicado em 1967, com o título: Report From Iron Mountain - on the Possibility and Desirability of Peace, (publicado no Brasil como "A paz indesejável", Ed. Laudes, 1969, conhecido como o Relatório da Montanha de Ferro) supostamente de autoria de um dos participantes dos estudos chamado Jonh Doe, que teria decidido trazer a público a conclusão dos cientistas.



O livro foi best seller, mas teve sua veracidade questionada. Quando o então presidente americano Lyndon Johnson teve acesso ao material, ordenou que ele fosse suprimido e deu ordens para que fosse armada uma campanha de difamação, afirmando que o livro era uma farsa e não tinha nada de oficial.

Em março de 1972, um escritor de Harvard chamado Leonard C. Lewin assumiu a autoria do livro e afirmou que este seria uma farsa. No entanto, ao longo dos anos, surgiram diversos indícios de que o Report From Iron Mountain seria mesmo um documento ultra secreto do governo americano.

Nos anos 1980 sua influência nas teorias da conspiração era muito grande e é muito provável que Alan Moore teve o volume em mãos durante a concepção de Watchmen. É óbvio que o final da série corresponde perfeitamente a primeira teoria proposta no livro, de que a farsa fabricada de uma suposta invasão alienigena iria possibilitar a união de todos os povos do mundo contra o inimigo comum. Caberia ao governo americano forjar este ataque vindo do exterior, gerando o medo em toda a população e nos governos do mundo todo. Os conflitos globais entre comunistas e capitalistas, que ameaçavam destruir o mundo, seriam superados, instaurando a paz.

No gibi Alan Moore apenas transformou a teoria no plano do herói louco Adrian Veidt, e a execução é perfeita.

Esta é minha crença, Alan Moore teria concebido o final de Watchmen a partir da leitura deste livro. Afirmo ainda que é a qualidade das informações dispostas pelos criadores que dão profundidade e verosimilhança as suas criações, por isso, se o final de Watchmen parece insano ou inverossímel, é por que foi baseado em um conceito ainda muito a frente de nossa época e que vem sendo mantido em segredo para não chocar as mentes mais frágeis.

Não é fácil aceitar, mesmo em um gibi, que Adrian Veidt realiza o plano maligno de matar milhões de pessoas e enganar o mundo inteiro para forçar a paz. Da mesma forma, não aceitamos o Report fron Iron Mountain senão como teoria da conspiração. Quem vai acreditar que o governo americano pretendeu mesmo arquitetar uma grande farsa para enganar o mundo?

De invasões alienigenas não temos indício nenhum, mas não é assustador o fato de que enquanto a primeira opção proposta pelo livro coresponde perfeitamente ao enredo de um gibi, a segunda corresponde perfeitamente ao que vem acontecendo hoje em nossa realidade: a campanha em torno da ideia do aquecimento global não vem se mostrando como a possibilidade de uma catástrofe mundial causada pela poluição que uniria todos os povos?

O final de Watchmen hoje parece fantasioso, forjar uma invasão alienigena parece besteira infantil, porém mesmo com a Guerra Fria já bem longe, o Report From Iron Mountain continua ai, não como uma teoria da conspiração, mas como o interessante documento de uma época. E ele estaria sendo posto em prática??

De sua fortaleza escondida, Ozymandias sorri.




Leia o Report From Iron Mountain - on the Possibility and Desirability of Peace

A tradução brasileira se encontra esgotada.


...

8 Comentários:

Jordan disse...

Legal o post. E com uma informação que todos os fãs de watchmen procuram até hoje. Contudo, nunca desmereci o final de Moore, e pelas minhas próprias teorias o compreendia da seguinte forma:

A história se passa no ano de 1985, uma época em que os ecos da corrida espacial eram muito fortes. Tanto que se analisar a grande literatura de ficção o tema com maior presença era a vida alienigena. Então a possibilidade de vida extra-terrestre não era uma coisa absurda pra uma raça (os humanos) que estava recem ingatinhando na corrida espacial, mal havia completado 16 que o homem pisara na lua pela primeira vez! Achei que Moore acertou nesse ponto, para um publico tão distante daquela epoca talvez Zack Snyder tenha acertado no seu final, mas acho o de Moore bem mais condizente com o impacto social almejado, afinal, ele brincou com os temores de uma época.

De qualquer jeito, essas discuções só mostram o quanto a obra de Watchmen é poderosa. Equanto nós, meros mortais, nos preocupamos em desvendar a cabeça daquele barbudo, ele fica rindo no canto escuro de sua casa, rodeado por toneladas de livros proibidos!

Poeta disse...

Segundo o editor que trabalhou com Alan Moore na época (No wikipedia diz ser Len Wein, mas agora não estou certo, tem tempo que li isso), havia um seriado de TV (Alem da imaginação se não me engano, o tempo...), o final era exatamente igual a um episódio da série e o editor se afastou na época justamente por discutir esse detalhe (dentre outros) aos quais não concordava.

Esse livro pode ter servido de inspiração sim, mas o editor foi explícito na entrevista (Que li numa Wizard brasileira da Panini, desculpe não lembrar o número nem se já tinha o nome Wizmania...).

Tavares disse...

@poeta

O episódio do seriado se chamava "Architects of Fear" e foi exibido em setembro de 1963.

Quando Alan Moore ficou sabendo dele já estava escreverndo o numero 10 de watchmen e ficou muito surpreso pela coincidência, por isso incluiu uma citação no gibi, mas quando definiu o final da história ele não o conhecia. Portanto é mais provável que ele tenha se inspirado no Relatório da Montanha de Ferro.

O mais incrível é que os cientistas se reuniram na Montanha de Ferro em agosto de 1963...

Gustavo Aguiar disse...

Rapaz, muito bom!

Só acho que Alan Moore deveria ter citado ou instigado de alguma forma a existência de Report From Iron Montain em Watchmen uma vez que citações de terceiros é algo que não falta em sua obra prima.

Juliano disse...

Muito bom o post. Sempre achei que o Moore tinha inventado aquele final pra inviabilizar uma adaptação para o cinema.

Rogério Faria disse...

Legal! Isso, assim como muito da obra de Moore, vai ao encontro do que escrevi sobre referências nos quadrinhos: http://criandohqs.blogspot.com/2012/02/referencia-nos-quadrinhos.html

Caio Gracco disse...

Grande texto, Tavares. Quanto à conclusão, só acrescentaria que, hoje, ao invés de alienígenas, são os terroristas que são usados retoricamente como inimigo comum da humanidade, contra os quais é necessária a união de todos num mesmo desígnio. E essa seria uma leitura interessante das teorias conspiratórias que atribuem o 11 de Setembro ao próprio governo americano... Será que o governo dos EUA está agindo com base no relatório de Iron Mountain? hehehe

Tavares disse...

Caio

Eu gosto de teorias da conspiração, mas prefiro achar que são os terroristas que usam os americanos como inimigos fantasmas e não o contrário.

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