21 de jun de 2011

X-Men - Primeira Classe e o mito do Homem Superior


"Provavelmente, já existem mutantes entre nós, ou, pelo menos, homens que já deram alguns passos sobre a estrada que, um dia ou outro, todos nós percorreremos."

Louis Pauwels e Jacques Bergier - O Despertar dos Mágicos

E se uma raça superior de seres humanos evoluídos surgisse na Terra? O que aconteceria com nós, os Homo Sapiens? Como essa nova espécie seria vista por nós e, principalmente, como eles nos veriam, como seria nossa relação? Estas foram, provavelmente, algumas das questões primordiais que levaram Stan Lee a criar os X-Men, em 1963.

Sabemos que o primeiro título imaginado para a série foi simplesmente "The Mutants", mas a ideia foi abandonada, pois julgou-se que ninguém saberia o que era um "mutante", um conceito então desconhecido do grande público. Stan Lee, na época, buscava apenas repetir o sucesso do Quarteto Fantástico, outro grupo de super-heróis criado por ele, que tinha levado a Marvel a concorrer peito a peito com a DC Comics no mercado de gibis, imitando o sucesso da Liga da Justiça da América. Sem saber, Lee criou personagens que atravessariam décadas e se tornariam parte do imaginário de crianças e jovens no mundo inteiro.

Sabemos também que Lee teria se referido ao clima político dos anos 1960 na concepção das histórias dos X-Men, tendo como base os movimentos pelos direitos civis iniciados pelos negros americanos. Mesmo com os Mutantes sofrendo discriminação por serem indivíduos diferentes dos demais, alguns deles buscariam uma convivência pacífica e aceitação, como o Pastor negro Martin Luther King buscava. Do lado oposto estava Malcoln X, que pregava a violência como forma de resistir e a superioridade natural dos negros. Este paradigma seria a orientação ética básica nas primeiras histórias dos mutantes, tendo os X-Men de Xavier de um lado e a Irmandade dos Mutantes de Magneto, do outro.

Muito já foi dito sobre isso e como o filme X-Men - Primeira Classe se refere ao mesmo conceito, trazendo, com algumas leves adaptações, o clima das primeiras HQs. Porém, o que mais me interessou no filme, e o que sempre mais me interessou nas histórias dos X-Men, é o conceito da superioridade mutante pregado por Magneto, e ao assistir a produção, ví-me extremamente feliz por ele ser, na verdade, em minha visão, o mote principal da trama. Deixando de lado o velho drama de pessoas que não são aceitas pela sociedade e esse papo de coitadismo e busca por aceitação versus revolta violenta e sentimento de superioridade. A ideia por trás do filme também é o impacto do surgimento de uma nova raça em uma sociedade já imersa em grandes transformações, e a psicologia destes seres.

A trama mostra o mutante Sebastian Shaw, que acredita na superioridade da nova raça, tentando provocar uma guerra nuclear entre EUA e URSS. Seu objetivo é causar o colapso da raça humana e a aceleração das mutações naqueles que possuem o Gene X em potencial, pelo efeito da radiação. Dessa forma, os mutantes sobreviveriam a hecatombe para dominar e escravizar os humanos comuns. Os esforços de Shaw chamam a atenção dos também mutantes Charles Xavier e Erik Lehnsherr, que tentam frustrar o plano, liderando um grupo de jovens mutantes, os X-Men.

No entanto, as diferenças ideológicas entre Xavier (um professor de genética que acredita na convivência pacífica entre mutantes e humanos) e Lehnsherr (um sobrevivente de campos de concentração que acredita na superioridade mutante, se dedica a caçar nazistas e não tem noção de limites morais) põe em questão a validade da causa. Estaria Sebastian Shaw fazendo o que a sua própria natureza lhe impõe como representante de uma raça superior ou mutantes e humanos são iguais e tudo é uma questão de "aceitação"?

No final, os comunistas radicais e os representantes do mundo livre preferem aceitar uns aos outros, mas não os mutantes, e vencem as suas diferenças para combater a ameaça comum: a nova raça que eles não conhecem e que surgiu para suplantá-los!

Esta não é uma crítica do filme, farei isso outra hora, prometo. Estas primeiras observações são apenas, longe do melodrama comum, uma especulação sobre pontos de vista.

O drama também é presente no filme, nas doses corretas, devo dizer. Mas a questão dos mutantes é bem mais preemente. Não é a toa que o personagem Magneto é de longe o melhor e mais intrigante de todos.

O que é um Mutante? De onde Stan Lee tirou a ideia de seres que sofrem mutações que os levam a desenvolver habilidades incomuns devido a um gene misterioso, cujo aparecimento está intimamente ligado ao início das pesquisas com energia nuclear?

Em X-Men Primeira - Classe, vemos a adaptação cinematográfica daquilo que seria a aurora da era dos mutantes. As primeiras HQs dos X-Men apresentam o surgimento da equipe nos anos 1960, em uma época de transformações sociais, com o mundo dividido entre as ditaduras comunistas lideradas pela União Soviética e as democracias liberais orientadas pelos EUA. Naquela época a corrida armamentista efetuada pelas duas superpotências colocou o mundo sob a ameaça de uma guerra nuclear, fenômeno completamente novo que teve início em 1945, com as bombas atômicas jogadas sobre o Japão, pondo fim a Segunda Guerra Mundial.

Mais de uma década depois, na França, o engenheiro químico e espião Jacques Bergier se juntou ao escritor esotérico Louis Pauwels, e em uma reflexão sobre os efeitos das novas descobertas científicas e filosóficas da Era Atômica, criaram um cabedal de ideias estapafúrdias conhecidas como o Método do Realismo Fantástico, um misto de especulação esotérica, pseudociência, ficção científica, invencionice e imaginação pura. Ambos eram sobreviventes da Guerra e achavam que os estudos da energia atômica poderiam levar a humanidade a uma nova era de conhecimento. Eles também acreditavam em uma Evolução do ser humano para uma nova raça, por isso, juntos escreveram Le Matin des Magiciens (O Despertar dos Mágicos), um livro que tinha como objetivo trazer ao mundo o conhecimento dos primórdios da pesquisa sobre essa nova etapa para a espécie humana.

O livro se tornou um best seller mundial e em 1963 foi traduzido para a língua inglesa, chegando aos EUA com o título de The Morning of the Magicians. Os principais temas abordados são três:

1 - A superação do paradigma científico racional que dominou o século dezenove e o valor das ciências esotéricas, principalmente a alquimia, para o desenvolvimento de novas abordagens e metodologias.

2 - Um novo olhar sobre a história, utilizando como exemplo uma releitura da História do Terceiro Reich, levando em consideração as crenças esotéricas dos líderes nazistas.

3 - Especulações sobre a evolução do ser humano para uma nova raça, com habilidades e poderes então incomuns.

A última parte do livro se chama "O Homem, Esse Infinito", cujo último capítulo é "Divagações sobre os Mutantes" e os tópicos abordados são:

O garoto astrônomo - Uma subida de temperatura na inteligência - Teoria das mutações - O mito dos Grandes Superiores - Os Mutantes entre nós - Do Horla a Leonardo Euler - Uma sociedade invisível dos Mutantes - Nascimento do ser coletivo - O amor pelo vivo (leia aqui).

Uma das principais especulações dos autores é a possiblidade das explosões de bombas nucleares e do uso de energia atômica terem trazido, através da emissão de radiação na atmosfera terrestre, a possibilidade do surgimento de mutações genéticas positivas e não apenas danos a saúde. Estas mutações, que podem levar milhares de anos para se manifestarem plenamente, causariam uma aceleração da evolução física e mental da humanidade, dando origem a uma nova raça, com poderes incríveis e desconhecidos pelos homens comuns. Ora, não são esses então, os mutantes dos gibis da Marvel? Teria Stan Lee lido esse livro? Eu acredito que sim, porém, ele não mergulhou profundamente nessas águas turvas.

Há uma ressalva incrível da parte dos pesquisadores: Esta mutação traria não somente transformações físicas, mas também psicológicas, sendo esta nova raça imune a necessidade de aceitação e aos limites morais do homo sapiens comum.

No filme e na maioria das HQs, vemos como na maior parte do tempo, Erik Lehnsherr é alheio ao drama da aceitação. A cena final, de sua batalha com Sebastian Shaw (que tem uma ligação com o passado do antiherói que eu não vou citar pra não estragar a surpresa) mostra que ele acredita na causa da superioridade mutante. Até então ele é apenas um homem traumatizado pelo seu passado, mas logo ele será um Mutante consciente de sua condição, e se torna Magneto. Erik Lehnsher, o garoto judeu que perdeu a mãe em campos de concentração, não existe mais.

Stan Lee não pensou nisso, ou o ignorou se caso chegou a ler o livro de Pauwels e Bergier. O mutante pleno de sua condição é mais desenvolvido psicologicamente do que o homem comum e não deseja ser aceito. Esta necessidade é comum e compreenssível para nós, mas eles já a ultrapassaram. Ele não vai mais se esconder por se achar um coitadinho, feio ou deformado, como os pupilos de Xavier se acham. Ele vai mostrar sua condição ou forçar a sociedade para que ela se adapte a ele, mas ele jamais vai se adaptar a sociedade. Há uma cena do filme que mostra o quanto Magneto é ciente dessa questão, quando ele pede a Mística que assuma sua verdadeira aparência, na cama.

Em o Despertar dos Mágicos temos o panorama completo do que seria um mutante e uma sociedade oculta deles, vivendo entre nós. Não lutando por "direitos" ou em busca da "aceitação", mas simplesmente desenvolvendo suas habilidades ao extremo. Estariam eles planejando um dia nos destruir? A mutação levaria muitos anos e seus primeiros resultados seriam seres falhos, ainda meio humanos, por isso as necessidades psicológicas comuns, as deformações físicas ou ainda a capacidade de conviver com humanos sem se sentir superior. Estes seriam os X-Men.

Porém, no final:

"Essa mutação, essa aparição de outra raça poderia ser devida ao acaso. A radioatividade, entre outras causas, poderia produzir uma modificação dos genes de certos indivíduos. A proteína do gene, ligeiramente atingida, não forneceria mais, por exemplo, certos ácidos que provocam em nós a angústia. Ver-se-ia aparecer outra raça: a raça do homem tranquilo, do homem que não receia nada, que não sente nada de negativo. Que vai à guerra tranquilamente, que mata sem inquietação, que goza sem complexos.."

Este ser seria Magneto.

Este é o ponto em que ví X-Men - Primeira Classe, sob a perspectiva de Magneto, de um verdadeiro, a meu ver, espécime de um ser mutante, que não é mais humano como nós somos e não tem nossas necessidades primárias de aceitação ou limites morais. O filme, visto sob este ângulo, assim como muitas histórias dos X-Men, ganham inúmeras novas interpretações.

É muito fácil acreditar que o que define a vilania do personagem é sua história de vida cheia de sofrimento, então pra mim não é a morte da mãe em um campo de extermínio que faz Erik se tornar Magneto, mas o conhecimento pleno de sua própria condição. Acredito mesmo que todos nós, se um dia descobríssemos que temos poderes além dos mortais comuns, seriamos um pouco como ele.



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