22 de nov de 2010

Retalhos - Ou como uma Graphic Novel pode não valer a pena


O surgimento da Graphic Novel, nos anos 1960, veio de esforços muitas vezes isolados, mas sempre espontâneos, de autores europeus, japoneses e americanos, um esforço coletivo que é fruto de um certo preciosismo de artistas com melhor formação cultural que vislumbraram as Histórias em Quadrinhos como uma linguagem capaz de transmitir ideias, indo além do entretenimento de massas. Aconteceu com as HQs o mesmo que ocorrera ao cinema, talvez com apenas uma ou duas décadas de atraso. Esses artistas, entre os quais eu destaco os italianos Guido Crepax e Hugo Pratt, imprimiram marcas pessoais na sua produção de HQ, assim como os diretores de cinema de vanguarda passaram a fazer um "cinema de autor", abrindo caminho para que esta linguagem se transformasse em expressão artística e passasse de entretenimento de massas a uma forma de arte com o mesmo status representativo das já consagradas linguagens clássicas da pintura, literatura e da música, etc. A proposta seria utilizar a linguagem das HQs como uma forma de literatura em imagens, utilizar-se dos seus elementos comuns de criação coletiva acrescentando-lhe novos elementos de criação individual.

Hoje se festeja a Graphic Novel com um certo esnobismo, há uma grande quantidade de obras e artistas se dedicando ao gênero, premiações e crítica especializada, mas não é sempre que se atinge um nível de qualidade que seja justificável. Passado o estranho período dos anos 1980 quando a indústria americana tentou de todas as formas popularizar o termo para uma exploração comercial absurda e se imprimiam "Graphic Novels" simplesmente juntando 5 ou 7 episódios de "Amazing Spider-Man"' melhor desenhados e com um roteiro menos usual, e tudo que envolvia o termo ficou meio duvidoso, hoje aparentemente já se sabe o que é uma Graphic Novel. Há uma certa abundância até nas livrarias brasileiras, cujo mercado é limitado, elas já fazem parte do currículo em muitas escolas e ninguém mais se envergonharia em declarar-se um leitor.

Não há quem discorde que existe realmente uma forma de literatura que se expressa através de imagens, mas poucos são os que entendem o que isso significa e quais as consequências e os compromissos em se utilizar uma linguagem nascida de esforços coletivos para o entretenimento em uma experiência artística autoral. Por isso, as possibilidades da Graphic Novel são imensas mas ainda pouco exploradas. Para melhor sintetizar o que tenho a dizer, decidi dar o exemplo de uma obra recente que de maneira alguma despertará dúvidas sobre sua categoria, porém muitas sobre sua profundidade e legitimidade. Trata-se de Retalhos, Graphic Novel do artista americano Craig Thompson lançada em 2003 nos Estados Unidos e em 2009 no Brasil pela editora Companhia das Letras. Esta HQ vem sendo aclamado por todo o mundo, foi agraciada com os grandes prêmios da indústria, levou nada menos do que três prêmios Harvey (melhor artista, melhor graphic novel original e melhor cartunista) e dois prêmios Eisner (melhor graphic novel e melhor escritor/artista), é considerado pela crítica como uma obra seminal e teve grande sucesso, inclusive no Brasil, onde esta indicado ao prêmio HQ MIX este ano.

Senti interesse por Retalhos ao ler um release de lançamento, se não me engano no caderno de cultura da Folha de São Paulo. A obra era anunciada como um romance de formação. Ora, quem é iniciado em literatura conhece a tradição do gênero, que conta entre suas realizações, só para ficar entre os meus preferidos, com clássicos absolutos como o Demian de Hermann Hesse, o Retrato do Artista Quando Jovem de James Joyce e o fabuloso Misto-Quente de Charles Bukowski. Imbuídos da velha, porém ainda viva, tradição idealista romântica, os romances de formação (Bildungsroman) vem da Alemanha e tem sua origem no Anos de Aprendizagem de Wilhelm Meister, de Wolfgang von Goethe. De cunho autobiográfico, com farto uso de simbolismos sem deixar de serem realistas, pois retratam uma verdade pessoal, enfatizam as primeiras impressões do mundo de um indivíduo, o escritor, que narra em primeira pessoa a sua formação espiritual e intelectual, sempre em conflito com uma família ou sociedade tradicional com a qual precisa romper para afirmar-se enquanto Ser único. Alguns temas focados são: a formação de uma identidade sexual; o reconhecimento da posição do ser humano enquanto indivíduo perante a sociedade e o conflito inerente a esta descoberta; a luta para desatar as amarras de uma educação repressora e construir sua própria identidade, onde encontrará uma visão de mundo mais harmônica, ou completamente caótica, porém livre de modelos e influências externas; o conhecimento e aceitação das ideias da morte, do amor, da liberdade e a importância de se viver os sonhos e delírios pessoais para a realização espiritual e intelectual do ser humano. Jamais chegando a uma conclusão definitiva, os romances de formação tem geralmente um final aberto, a narrativa é interrompida no momento em que o personagem se lança ao mundo, livre das limitações impostas pelo seu meio, porém sem um rumo claramente definido, apenas com um certo conhecimento maior sobre seu próprio ser a partir das lições aprendidas em dolorosos conflitos.

Retalhos sem dúvida se encaixa nesta categoria literária e dentro do universo das histórias em quadrinhos ela é classificada obviamente como mais um HQ biográfica, gênero que está em voga atualmente, contando entre suas realizações mais conhecidas o Umbigo Sem Fundo, de Dash Shaw, O Epiléptico, de David B., e Persépolis de Marjane Satrapi, entre outros. A biografia ou autobiografia em quadrinhos começa com o cartunista Robert Crumb, que de forma despretensiosa, narrando suas taras sexuais, sem querer inaugurou um gênero. Nunca antes dele um autor de quadrinhos havia ousado por a sí próprio como personagem e contar suas histórias. As "confissões" de Robert Crumb são sátiras, mas abriram novas possibilidades para os quadrinistas underground americanos que sentiam a necessidade de romper com os gêneros consagrados das HQs. Superheróis, fantasia, faroeste, detetive, terror, policial e ficção científica não interessavam a esses autores senão como temas de sátiras. As revistas Underground se concentravam em mensagens políticas, experiências gráficas de vanguarda e humor escatológico, tendo seu apogeu na década de 60 em meio ao movimento hippie. Nos anos que se seguiram muitos autores levaram a sério a proposta de Crumb, talvez o primeiro a ter destaque foi seu amigo, o roteirista Harvey Pekar, que lançou o fanzine American Splendor, de início desenhado pelo próprio Crumb. Nas útimas duas décadas é cada vez maior o número de artistas que vem explorando as possibilidades das HQs biográficas, com pouco ou muito sucesso.

Retalhos, seguindo esta tradição, é a narrativa detalhada e extensa da formação do jovem Craig Thompson desde sua infância na área rural de uma pequena cidade perdida do Wisconsin, região dos EUA açoitada pelo frio e pela neve durante a maior parte do ano. Ele é o filho mais velho de uma família religiosa e pobre, e precisa dividir a cama com seu irmão mais novo, Phil, um garoto sapeca e muito mais inteligente que o autor. O pequeno Thompson é um menino inerme e fraco que sofre constantemente com agressões do meio sem reagir. Ele tem que presenciar o pai levando o irmãozinho pra dormir de castigo em um quarto sujo, apanha na escola, é humilhado por ser pobre e fraco, vê o irmão ser supostamente abusado por um grandalhão e não tem coragem de fazer nada. A medida que cresce ele se identifica com a pior característica do cristianismo: a sua teologia do sofrimento e da fraqueza, mas quando é chamado para assumir definitivamente sua posição de cristão em um seminário, também não tem coragem, e se refugia em um mundo de sonhos. Thompson tem uma leve inclinação para as artes, mas também não é capaz de assumir este sentimento, preferindo queimar seus desenhos. A narrativa vai alternando momentos da adolescência e da infância dele, suas fantasias individuais e os dogmas que lhe são impostos pela educação religiosa.

Enquanto o irmão pequeno reclama e esperneia com tudo, Thompson se cala e cria culpas, vai criando uma personalidade vitimista e miserável. Grande parte desses episódios é ilustrado por passagens da bíblia, que longe de fortalecerem o pobre garoto, o tornam ainda mais fraco, uma vítima de sí próprio. Um dia, ao chegar a adolescência, ele vai a um acampamento de inverno com estudantes de várias escolas. Já ferido pela própria autocomiseração, aparece como um cara incapaz de ter uma turma de amigos ou relações pessoais, tendo que procurar outros rejeitados para pedir um pouco de atenção. Com seu cabelo de menina, vai conhecer uma garota de verdade, entre outros "perdedores". Raina é uma garota legal, muito mais viva e entusiasmada do que Thompson, ela da uma certa bola pra ele logo no início, coisa inédita pra um cara acostumado ao ostracismo, isso desperta nele uma paixão automática, algo típico em uma personalidade solitária. Essa paixão é o mote principal de Retalhos.

Nos cultos religiosos ele é o único que não canta, não por que não queira, mas porque julga que não sabe cantar, que não tem boa voz. Ele é incapaz de se entregar ao que o meio lhe impõe e não consegue de maneira alguma afirmar a crença em algo diferente. É um garoto tão sensível que não come nem carne. Levado a um estado de depressão, sua única fuga seriam os desenhos, mas ele também não consegue assumir a arte como sua missão, não se decide por consagra-la a suas fantasias ou a religião. Então vem o momento em que a paixão por Raina toma conta de seu imaginário, quando começam a chegar as correpondências da garota, que mora em outro estado, Michigan, e está apaixonada. É ai que temos um fato constrangedor, quando ele se masturba excitado por uma carta dela, coisa que parece ser narrada por Thompson com uma certa culpa e vergonha pra não quebrar o clima de sentimentalismo da história. Até que Raina, claramente oprimida por graves problemas familiares, busca nele uma fuga, convidando-lhe para passar uma temporada em sua casa.

Neste ponto a Graphic Novel já começa a cansar e pesar nas mãos, um pouco pela sua pieguice. Como se não bastasse sua síndrome de coitadismo, ao chegar ao paraíso prometido, o pobre do Thompson é agarrado por uma retardada de 19 anos chamada Laura, irmã adotiva de Raina que possui mentalidade de uma menina de 5 anos, e tem que aguentar o ódio mal dissimulado do outro retardado da casa, Ben, de 26 anos, outro irmão adotivo de uma família estranha e pouco americana; Os pais estão se divorciando, a mãe é viciada em remédios e a irmã mais velha, Julie, casou-se com um mal partido e teve um filho cedo, do qual Raina é baby sitter. Apesar de estar em um local problemático, com o qual muito poderia aprender, Thompson permanece tímido e pouco ativo, pretende se refugiar na bíblia, e tenta fazer uma conexão dessa sua apatia com um retrato de Jesus que Raina tem no quarto, que o remete, é lógico, a infância, quando os pais religiosos lhe impunham dogmas. Suas lamentações, culpas e traumas jamais lhe abandonam.

Raina lhe presenteia com uma colcha feita de retalhos dos vários cobertores que ela usou durante toda a vida desde bebê, este é o ponto chave da construção metafórica de todo romance. O autor tentou representar aqui o fluxo de ideias que compõe a memória e a própria estrutura de uma narrativa autobiográfica visual, mas suas metáforas parecem meio desbotadas e pálidas, carentes de uma beleza profunda. Os dias vão se passando em meio a lembranças da infância de Thompson, os problemas mundanos da família de Raina, mas tudo começa a cansar o leitor, por que não se chega a lugar nenhum.

O casal vai a uma festa e Raina encontra diversos amigos, Thompson, apaixonado, sente-se separado da garota, incapaz de trazer sua paixão para o mundo sem inclui-la nas suas listas de traumas e culpas. Ele não fala com ninguém, fica na varanda suportando um frio abaixo de zero só pra se afirmar como um cara antisocial, mas é na verdade um covarde incapaz de encarar situações novas. Quando retornam pra casa a impressão é que há uma certa frieza entre ambos. Nesse momento eles já estão dormindo juntos, mas sem fazer sexo. Há mesmo poucas menções ao sexo em toda obra, até ai tudo bem, mas os personagems não são nem castos nem devassos, se entregam a um tipo de quase-sexo, ou quase-amor, uma relação meio cálida demais que pode até ficar bem em um gibi, mas que na vida real que ele pretende representar é improvável. Quando chegamos ao final da epopéia de duas semanas e 300 páginas na casa de Raina e vem o retorno pra casa, longo, demorado e silencioso de Thompsom, tudo já nos entediou ao extremo, chegamos a desejar que alguma reviravolta de soup opera aconteça, que um personagem morra de uma doença terrível ou que o nosso casal fuja e passem a viver juntos em uma cabana nas montanhas escondidos do mundo, mas o final não traz nem isso. Nada acontece em Retalhos.

Ao adentrar o universo do artista Graig Thompson retratado em Retalhos lembrei de minha vida em uma cidade pequena, da posição por vezes autoritária, mas sempre correta, de meu pai, da minha relação com meus irmãos que sofreu sério distanciamento na adolescência, lembrei da minha inadequação no período da escola e do conflito com os valores familiares e até mesmo da vez em que viajei uma boa distância sob condições hoje incríveis para encontrar uma garota que gostava em outra cidade, quando tive que conviver com sua família em uma situação completamente diferente da que estava acostumado, e por muito tempo durante a leitura lembrei de quando, ainda no fim da minha infância, questionei a fé católica que então professava por mera convenção. Porém em nenhum momento me identifiquei com a HQ a ponto de esquecer que a estava lendo, por três vezes mesmo interrompi a leitura e me distrai, não pude adentrar mesmo em sua alma, no cerne das coisas, ou por assim dizer, na alma do jovem Thompson, não pude me identificar realmente e sentir aquela "suspensão da descrença" necessária a apreciação de uma obra de arte plena.

Não captei no que foi retratado o ardor de uma experiência real, de conflitos reais de gravidade e autenticidade, senão em poucos momentos da história. Sua narrativa, em termos técnicos, é perfeita, porém lhe carece uma certa visceralidade, um adentrar mais nas coisas e não um flutuar em sua mera superfície. O conflito de Thompson em Retalhos parece ser com a superficialidade de um mundo, de uma cidade, de uma igreja, de uma família, de relações, de sentimentos, porém não se descortina para ele nada além disso, sua fuga para um mundo imaginário, de sonhos, um mundo interior, carece de paixão, pois não tem dores, terrores, a loucura, a morte e o sofrimento que nós, na vida real, encontramos. No final, a maneira como ele se livra de um amor que lhe levou a tantos sonhos, delírios, e quase a uma fixação doentia, é por demais simplória, passa levemente de um quadro para outro como um superherói de uma comic book ordinária salva o mundo da destruição final e ao mesmo tempo conta piadas. Quando vemos isso em uma HQ que se propõe a ser autobiográfica não há como não pensar que aquilo só é possível em uma ficção, ou em uma visão superficial da vida. Não há em sua obra uma cara de vida real, ou ele próprio não viveu as coisas apropriadamente.

Baudelaire escreveu em introdução as Flores do Mal: "Se o veneno, a paixão, o estupro, a punhalada, não bordaram ainda com desenhos finos, a trama vã de nossos míseros destinos, é que nossa alma arriscou pouco ou quase nada." Na obra de Thompson não há veneno, nem paixão, nem estupro, nem punhalada, e o tédio é do leitor.

Por mais que se ensaie uma beleza em suas metáforas ele não consegue nos tocar. Nem a neve, nem a cama, nem os anjos, nem os sonhos, nem os cobertores chegam a despertar poesia. Por mais que ele tente narrar momentos fortes, como o possível abuso sexual de seu irmão mais novo, ou sua suposta angústia com os dogmas da igreja e um iminente conflito com a família, a paixão arrebatadora por Raina e as relações difíceis da família da garota, nada nos leva aquele momento ápice da expressão artística, que é basicamente perturbar o leitor, tirar dele a sanidade por instantes. Um dos motivos disso, a meu ver, é que sua execução é por demais perfeita. Como artista dos quadrinhos Thompson é um bom discípulo de Scott Mcloud. Bom demais, este é o problema. Logo no primeiro capítulo de Retalhos nota-se que ele não acrescenta nada a linguagem, sua narrativa não surpreende, nem traz elementos novos, além da extensão. Ele encarou um desafio que poucos ocidentais conseguem levar a cabo, realizar uma obra em quadrinhos de quase 600 páginas, coisa que só os artistas dos mangás ousam, utilizando-se de um tempo narrativo completamente diferente, mas fez isso de uma forma por demais segura. Então espera-se que a força de seu trabalho resida no enredo, é aí que vem a decepção. Seu universo subjetivo está todo alí, porém é pouco ou nada envolvente. Na verdade nota-se uma certa apatia em Thompson, uma falta de capacidade de reagir a vida, um alheamento claro e fraqueza de espírito. Desde os momentos narrados de sua infância, quando sofria agressões na escola e não reagia, até o momento em sua adolescência em que se recusa a fumar maconha e a sua aceitação inconteste de dogmas da igreja, ele demonstra uma personalidade apática. Já no final de Retalhos, e é difícil chegar lá pois é necessário passar pela detalhada, longa e entediante descrição de seus momentos quase-íntimos com sua quase-namorada, quando Thompson decide sair de casa aos vinte anos (o que pra mim é a única surpresa da obra pois eu mesmo só saí de casa aos 25), nem sequer um conflito com a família ele esboça e com relação a religião limita-se ao clichê de uma descrença que não nega nem afirma.

Thompson é um fracote como artista até na hora de narrar o momento mais importante da vida de um homem, que é normalmente o ponto forte dos romances de formação, quando o protagonista chega o mais perto possível daquilo que queria ser e se sente pronto para libertar-se. Em vez de afirmar a força de seu mundo subjetivo e a sua individualidade, ele reafirma a fraqueza de sua personalidade com uma fuga.

Acredito na profundidade e importância de tudo que um ser humano vive, mesmo os artistas que nutrem um grande desprezo pelo cotidiano, e eu sou um dos que se enquadram nessa categoria, importam-se com ele, a ponto de representa-lo e querer conhecer o que outras pessoas viveram. Uma das maiores experiências na vida, na minha opinião, é quando descobrimos que em outros lugares e outras épocas, completamente diferentes daquela em que vivemos, outros indivíduos tiveram ou tem os mesmos pensamentos que nós temos e registraram isso em um livro, uma pintura, um filme, ou uma HQ. Este é o maior prazer que a arte pode nos dar, o de sabermos que somos únicos, mas que não estamos sozinhos em nossa busca por desvendar a existência. E essa possibilidade de criar ligações entre espíritos completamente diversos pode ser realizada em uma HQ, mas para isso, como dizia Ray Bradbury, grande amante dos livros e autor de ficção científica, é necessário que o escritor, o artista, saiba nos tocar, saiba criar esse contato, e é a digressão sua grande arma, pois não basta apenas descrever o cotidiano, há de se provar o veneno de encara-lo de forma diferente, sob outro ponto de vista, há de se pensar sobre ele, mas não de forma ordinária e superficial. O artista deve encarar a vida como um vidente. Deve-se ter algo mais, não se vive grandes experiências sem deixar que elas nos perturbem.

Os pensamentos de Thompson em Retalhos são por demais superficiais e ordinários. Seus questionamentos ao dogma da igreja não vão além de um murmurar tímido, uma quase revolta. Sua paixão por Raina quase lhe faz refletir sobre o amor. O distanciamento do irmão quase lhe leva a dizer algo sobre as relações humanas. Suas conclusões finais são quase interessantes. Por isso nem em 10 mil páginas Retalhos conseguiria se tornar arte de verdade e nos arrebatar, é uma narrativa de novela das oito, de filme indie feito pra ganhar prêmios, perfeita, bonitinha e redonda demais. É a música do Radiohead em quadrinhos, experimental sem sair do senso comum, triste sem ser trágica. Os retalhos de Thompson parecem farrapos.

Como disse no ínicio, a Graphic Novel é uma terra desconhecida, imensa e inexplorada, as histórias em quadrinhos nasceram banais e desimportantes mas hoje tem grandes possibilidades, acredito que grandes obras já surgiram e muitas mais estão para surgir. Cabe a cada artista se declarar herdeiro dessa tradição de grandes criações e ousar acrescentar um pouco de seu subterrâneo pessoal, ir buscar pelas suas experiências mais temerosas e dar voz a elas. Há Graphic Novels que me dão terríveis dores de cabeça e pesadelos, como exemplo cito o MAUS, de Art Spiegelman, Watchmen de Alan Moore, Sandman de Neil Gaiman, Black Hole de Charles Burns, toda a obra de Lourenço Mutarelli, muitas histórias de Hellblazer, os tenebrosos nakegás de Suehiro Maruo, os relatos de zonas de guerra de Joe Sacco, o universo cínico e surreal de Daniel Clowes, e muitos outros. Seus autores não economizaram na dose de loucura, paixão, terror, tédio, estupro e punhalada que a alma pode arriscar. Em Retalhos o autor não faz isso. Como romance de formação sua obra deixa a desejar, como hq autobiográfica também. Admirei sua explêndida execução, de fato, como artífice, Craig Thompsom mereceu todos os prêmios recebidos, porém se levarmos em consideração não o que foi feito, mas o que poderia ter sido, e pensarmos que ele teve quase 600 páginas para se expressar, veremos que o que ele realmente conseguiu provar é como uma Graphic Novel pode não valer a pena.




2 Comentários:

cesarthestrange disse...

confesso que ja comecei a ler com pé atrás essa resenha principalmente por ter lido retalhos a pouco tempo e adorado a hq , mas depois de ler o texto por completo entendi e concordei com os argumentos expostos e me sinto muito feliz por ter lido retalhos e ate mais feliz ainda por ter lido essa resenha pois estou querendo fazer também a minha hq autobiográfica e esse artigo me abriu os olhos sobre a minha hq.

Kleiton Gonçalves disse...

Ótimos comentários!

Não suporto mais esse tipo de HQ. Quando leio uma sinopse e começam a falar em "autobiográfico", "tocante" etc. já ponho de lado.

Posso perder muita coisa boa por essa posição . Mas é um preço razoável a se pagar. Afinal, tempo falta, e muito, para me travar com uma penca de HQs, todos os meses, selecionando o joio do trigo.

Retalhos é uma boa HQ. Mas não passa disso. Estão fazendo muito "hype" em cima de "lugares-comuns".

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